Ivo-Teresa

Nossa Galeria - Homenagem a Maria Teresa Fiorani de Murra, Ivo Murra e Nando Giulio Murra, pelo exemplo de inconformismo com a injustiça e pelo espírito de solidariedade, marcas incontestes dos martianos de coração.

Maria Teresa Fiorani nasceu no Uruguai, em 1932. Foi a filha caçula do casal de imigrantes italianos, Elisa Centanni e Angelo Fiorani. Ela nasceu em um país tradicionalmente democrático e com forte influência dos movimentos sindicais e sociais cultivados por imigrantes chegados nas primeiras décadas do século. Ivo Murra nasceu na Itália, em 1923. Filho do casal italiano, Giulio Murra e Carolina Caciotti, nasceu em um país marcado pelas condições que dariam origem ao fascismo nos anos seguintes. Ele participou da segunda grande guerra, como integrante da resistência. Em 1950, emigrou para o Uruguai em busca de um futuro melhor. No início dos anos 50, Teresa e Ivo se conheceram e algum tempo depois, se casaram. Tiveram dois filhos e, em 1974, emigraram para o Brasil. O Uruguai, espremido entre ditaduras, romperia traumaticamente a sua tradição e se tornava mais uma. A vida, essa mescla de esperanças e horrores, passava, e as ditaduras perdiam sustentação externa e apoio interno. O abrandamento da repressão no Brasil, não por acaso, coincidia com fenômeno similar no Uruguai. Em 1984, os uruguaios fora do país se preparavam e se organizavam para voltar ao Uruguai para votar nas primeiras eleições depois do golpe de estado (não era permitido o voto nos consulados); era "el reencuentro". Era o voto, era a volta, era o grito de um país com feridas ainda abertas. No Rio de Janeiro, Ivo Murra e Teresa Fiorani de Murra, participavam desse movimento. Teresa fazia "pastafrola" (doce típico uruguaio) e com Ivo, vendia fatias para arrecadar fundos que contribuiriam para o retorno de vários uruguaios. Uma amiga lhes contou que na feira de artesanato da praça General Osório havia uma uruguaia que podia ajudar no movimento. Um domingo, Teresa e Ivo foram lá e encontraram a uruguaia Berta Baptista com seu esposo Jaci Pereira Lima. Em poucos minutos, oferecendo e vibrando, Berta se encarregou de transformar os tabuleiros de pastafrola em mais recursos para os que voltariam. Dessa tarde, de conversa, de lembranças, de projetos, nasceu uma amizade funda. Berta tinha vivido em cuba durante 9 anos, nos anos 60 e, entre os tantos amigos e amigas que deixou, havia uma em especial: Olga Hernández. Saiu de Cuba diretamente para a luta contra a ditadura uruguaia. Presa e selvagemente torturada, Berta estava doente, apesar da vida que enriquecia e derramava. Desenvolvea um cancer devido às seqüelas das torturas. Ivo, Teresa e Nando passaram a visitar e acompanhar Berta na sua luta contra o câncer e acabaram conhecendo Olga, por ocasião de uma de suas vindas ao Brasil. Entre risos e lágrimas ouviram das duas as histórias de vidas intensas e vibrantes. Aconteceram as eleições no Uruguai. Aconteceram as eleições no Brasil. Berta continuava o tratamento e a sua luta. Com ela, Ivo e Teresa compartilhavam muitas jornadas e histórias. Berta sonhava e afirmava que na casa em que morava, aconteceria "algo grande" para o entrelaçamento com Cuba. Berta faleceu em 1991. Em 28 de janeiro de 1994, na casa de Berta, numa tarde de domingo, estavam reunidas várias pessoas: Ivo, Teresa, Nando, Olga (então trabalhando aqui no Rio), Celso Felizola e alguns outros companheiros. Nessa reunião se lançaram as sementes do que viria a ser o Centro de Intercambio Cultural Martí Popular. A vida das pessoas não cabe em poucas linhas. O que poucas linhas podem representar é apenas uma modesta homenagem. Ivo, Nando e Teresa não estão mais conosco. Mas, como disse José Martí: "La muerte no es verdad, cuando se ha cumplido bien la obra de la vida" . Assim, Teresa, Ivo e Nando continuam presentes em tudo o que fizeram e ajudaram a fazer.

Que eles, e todos os que na sua luta quotidiana tentaram e tentam construir um mundo melhor, nos acompanhem e inspirem sempre.

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