A Revolta da Chibata

Lírian Tabosa.

Poderosos navios, fabricados na Inglaterra, faziam do Brasil o país mais poderoso no Atlântico sul. Entretanto, A herança dos sistema escravista, o conteúdo de classe e os papéis bem definidos dentro dos quadros da marinha faziam com que uma maioria compostas de pobres,negros e mulatos recrutados à força fosse submetida por uma minoria de oficiais brancos, que decidia e aplicava as leis a seu modo a maneira. A situação de semiescravidão caracterizada por baixos salários, excesso de trabalho e castigos corporais (estes já abolidos por lei há mais de 20 anos), alimentava o clima de brigas internas dissensões e revolta. Em meio a essa maré, João Cândido Felisberto, exímio timoneiro, marinheiro experimentado, assume a liderança dos marinheiros e canaliza a revolta contra o inimigo comum. Sob seu comando, a tripulação preta e pobre prendeu os oficiais e tomou o controle dos navios que tinham o maior poder de fogo, como o encouraçado Sãs Paulo que com seus canhões poderia destruir a então capital da república.

Exigiam o fim dos castigos físicos (a chibatada), melhoria no soldo e na alimentação de bordo e ameaçaram bombardear o palácio do Catete (sede do Governo Federal)
Alguns oficiais que resistiram foram mortos e tiros de canhão foram trocados com as fortalezas da costa. A população do Rio de Janeiro estava aturdida, entre a curiosidade e o medo, o governo em xeque.

Pretendemos aqui levantar dados sobre este movimento e tentar estabelecer conexões com o com movimento dos marinheiros que antecedeu o golpe de 64. Segundo alguns ex-marinheiro, cassados nesta época, exceto o uso explícito da chibata, abolido a custa de fogo e sangue em 1910, em 64 os marinheiros lutavam por todas as demais reivindicações que levaram à revolta João Cândido e seus companheiros.

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A Revolta da Chibata

Celso Felizola Santos

Farta literatura tem abordado inúmeros aspectos da Revolta que aboliu definitivamente os castigos físico aos marinheiros da Marinha do Brasil. Em algumas delas, o esforço para mostrar João Cândido Felisberto, o líder da Revolta da Chibata, como um personagem confuso e contraditórioé bastante evidente. É inegável que ele sobreviveu em condições muito adversas: primeiro, nas masmorras da morte, onde o encerraram com dezoito companheiros, donde só saíram ele e mais um (vide edição anterior); depois, no período que vai desde a sua expulsão da marinha até as vésperas de sua morte em 1969, quando teve que dar duro para sustentar sua família e ainda superar o desdém da Marinha. Não se julga um homem sem conhecê-lo e principalmente, sem conhecer a sua história. A história que João Cândido ajudou a construir é incontestável: em 22 de novembro de 1910 ele, liderando um grupo de marinheiros tomaram o comando dos navios mais importantes da poderosa Armada brasileira, apontaram os canhões para a cidade e exigiram o fim de anos e anos de maus tratos e humilhações impingidos pelos oficiais a seus subalternos e a anistia para os revoltosos. Este fato histórico, não assumido oficialmente pela Marinha até hoje, está incorporado à cultura popular dos marinheiros, que em pequenos grupos, vez por outra, referem-se com orgulho e gratidão ao episódio. Faz parte do consciente coletivo da marujada. Essa ousadia, essa coragem, não pode ser confundida com ingenuidade, nem revela traços de mau caráter. Em sua viagem pela Inglaterra aqueles marinheiros sabiam muito bem o que os esperava: os marinheiros da Europa não falavam em outra coisa senão no episódio do encouraçado Potenkin. Sabiam, pelo contato com os rinheiros ingleses que o destino dos revoltosos russos foi o exílio ou a morte. Sabiam também do tratamento que a conturbada República costumava dar aos revoltosos, culpados ou não, principalmente aos pertencentes às camadas popularesdas populares: o fuzilamento sumário. No episódio da Revolta da Armada, movimento puxado pela oficialidade na disputa da partilha da República, sufocada a revolta, o Governo Floriano mandou fuzilar sumariamente centenas de marinheiros enquanto outros tantos desapareceram sem deixar rastro. Os oficiais que participaram do levante hoje são heróis da marinha (a exemplo de Custódio de Melo, que é até nome de navio). Não. Este desapego à vida não foi ingenuidade, assim como não foi conciliação depor as armas depois do acordo. Não se pode julgar a ação de um homem sem que se possa imaginar ao menos o contexto. Um movimento minuciosamente calculado não poderia deixar-se envolver tão facilmente. Mas na verdade a honradez e a dignidade do homem simples do início do século não pôde conceber o que de covardia e falsidade se acobertava por trás dos elevados ideais da República a que servia. Isso de acreditar no seu semelhante não diminui o homem simples, pois continuará a ser o farol da história concreta de nosso povo; enquanto seus algozes, os falsos heróis, pertencem apenas aos papéis, aos livros publicados por eles mesmos ou seus sequidores; mas como papéis velhos, seus destinos é o lixo. João Cândido, homem simples, amava a Marinha. “Nasceu marinheiro”, e mesmo expulso, negado pela historiografia da Marinha, continuava a ser marinheiro. A Revolta da Chibata não foi um movimento contra a Marinha, mas em favor dela, de sua dignidade. O zelo que os revoltosos tiveram com os navios e equipamentos foi prova disso. Os avisos que davam aos oficiais através de bilhetes anônimo demonstravam isso; o descaso dos oficiais (hoje heróis oficiais) os tornou os verdadeiros culpados pela deflagação da Revolta. A única magoa de João Cândido foi nunca ter sido reintegrado à Marinha, sua verdadeira paixão. Quem não é capaz de entender isso não tem o direito de opinar sobre o herói negro, que excluído da Marinha, viveu 59 anos de sua vida em um bairro pobre, numa casa, humilde da baixada fluminense; que trabalhou 49 anos descarregando barcos de pesca na Praça Quinze, trabalhando pelas madrugadas, nos porões cheios de peixe e gelo, mas que quando descoberto por um Governador do Rio de Janeiro e este lhe pergunta o que deseja para si e sua família ele responde: se quer ajudar me ajude a construir um lugar pra nós morar. Assim, depois de traído, aprisionado, de terem atentado contra sua vida, assassinado seus companheiros, internado em um hospício, expulso da Marinha e abandonado à própria sorte, o herói continua nobre, leal e honesto. Que exemplo para as nossas gerações tão carentes de referências, de valores. Juntemos nossas vozes e nossos corações: João Cândido, se a Marinha ainda não o reintegrou, no seio da marujada você será sempre herói, no seio do nosso povo, um exemplo para todas as gerações.

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Veja o Evento no qual o Martí Popular reverencia este valente guerreiro