A quem interessa o golpe militar em Honduras?

 

O dia 28 de junho de 2009 foi marcado por mais um dos golpes na América Latina. E isso nos deixa bastante preocupados, uma vez que vivemos em conjunturas democráticas, apesar dos deslizes e das corruptelas.

É claro que a primeira preocupação se expressa em nosso texto, mas nós, amantes da história, de seu desenrolar, de suas lições, e que a concebemos enquanto produto de ações humanas, não nos podemos furtar de especular, à luz das relações históricas que se estabelecem entre os protagonistas dos fatos, a respeito dos motivantes e das consequências dos acontecimentos, tendo em vistas nossas ações futuras.

Saber a quem interessa o golpe em Honduras carece de um estudo mais profundo, mas a quem não interessa já deu para antever no prólogo dessa abordagem. Dividamo-la, pois, segundo alguns aspectos estratégicos, a meu ver todos interligados: o geopolítico, o histórico-político e o econômico.

Aspecto geopolítico

Honduras é um país da América Central, limitado a norte pelo Golfo das Honduras, a norte e a leste pelo Mar das Caraíbas, a sul pela Nicarágua, pelo Golfo de Fonseca e por El Salvador e a oeste pela Guatemala. Pode-se dizer que, salvo a faixa relativamente pequena do sul de El Salvador, Honduras ocupa todo um corredor da América Central. A despeito de sua economia predominantemente agrícola, o país, pela sua posição geográfica, tem reconhecida importância estratégica, como veremos adiante.

Aspecto histórico-político

É histórica a relação de Honduras com os Estados Unidos, servindo de base para operações contra Cuba (1961), posteriormente, para combater os movimentos revolucionários na região e apoiar os "contras" da Nicarágua contra a Frente Sandinista. Sucessivos governos tutelados pelos EUA aperfeiçoaram seus serviços de segurança os quais, entre 1980 e 1990, cometeram inúmeros assassinatos e violações de diretos humanos, apesar de ser justamente de Honduras que, mais recentemente, foi apresentada na Comissão de Direitos Humanos da ONU uma moção de censura a Cuba, apesar de contar com um grande contingente de médicos cubanos que prestam assistência às populações carentes por todo o país. O próprio Zelaya, antes de sua inclinação para a "esquerda", era simpático ao "Tio Sam".

Aspecto econômico

Como sabemos, a economia hondurenha é predominantemente agrícola, sendo responsável pelo fornecimento de bananas e café. Produz também, em menor escala, camarões e lagostas, produtos que têm como compradores majoritários o EUA. Em contra partida, quase 60% das importações vêm dos Estados Unidos, o que coloca Honduras numa posição muito delicada economicamente.

Como se vê, aparentemente, nenhum dos aspectos analisados nos leva a uma conexão com o golpe. Por isso é necessária uma estratégia antiga: ampliar o foco da observação.

Analisemos primeiramente o cenário político que se delineia com a eleição de presidentes oriundos de camadas mais populares, ou de vertentes nacionalistas em importantes países do hemisfério sul.

Analisemos a seguir o surgimento de um polo de alianças protagonizado por Hugo Chaves, a partir da Venezuela, potência petroleira, cuja liderança radica no movimento popular organizado.

A abertura do Brasil, antes importante parceiro comercial privilegiado dos Estados Unidos, ao comércio com outros países da Europa, Ásia, África e da própria America Latina.

O deficit financeiro sofrido pelos EUA devido aos gastos com as guerras prolongadas no Afeganistão e no Iraque e agravado pela crise econômica mundial.

Um plano estratégico-militar

A possibilidade já aventada de os EUA retirarem parte de suas tropas do Iraque traz dois problemas imediatos: o aprofundamento da crise devido à redução da produção destinada à manutenção das tropas e a dificuldade de acomodar esse contingente em seu território em época de crise. Para resolvê-los restariam duas alternativas: desviar esse contingente para o Afeganistão e/ou provocar um novo conflito, agora na America Latina, onde poderiam manter suas tropas e economia em movimento. Aí começamos a vislumbrar alguma coisa que começa a fazer sentido.

Apesar das críticas dos direitistas -convictos ou condicionados-, essa que chamam de “teoria da conspiração” não está descartada. Vamos aos fatos:

Na última década foram aplicados pelos EUA na Colômbia mais de cinco bilhões de dólares, sob o pretexto de combate ao narcotráfico, ao qual conseguiu inicialmente associar à guerrilha e, posteriormente ao 11 de setembro, ao terrorismo.

Somente se pode ter idéia desse montante de investimento em setor não produtivo de um único país latinoamericano, quando se faz a crítica numérica: o PIB da Colômbia em 2008 chegou a algo em torno de 320 bilhões de dólares dos quais cerca de 0,8% foram aplicados na educação. Os cinco bilhões de dólares de “ajuda” norteamericana correspondem a quase 1,6% do PIB (?).

Esse dinheiro foi aplicado declaradamente para fortalecer o exército colombiano para que pudesse combater o narcotráfico e a guerrilha, mas a ajuda ianque não foi gratuita:

·       Inicialmente, introduziu pessoal militar no exército colombiano sob pretexto de treinar os “inexperientes” soldados colombianos;

·       Coadjuvou na ação de agressão ao território do Equador informando posições para o bombardeio em 2008;

·       Fornece armas e equipamentos militares para as forças armadas colombianas, quando em outros países aconselha a redução e até desativação de seus exércitos;

·       Consegue, agora em 2009, um preocupante acordo que lhe concede permissão para ocupar militarmente bases militares da Colômbia, cujos contingentes e equipamentos militares se somam aos já existentes nas dezesseis bases militares norteamericanas ali plantadas.

Três grandes objetivos se evidenciam em todo esse elenco de fatos:

A curto prazo ocupar militarmente a Colômbia, cuja área inexplorada é uma das maiores do continente, encerrando inúmeras possibilidades de exploração e ao mesmo tempo estabelecer as bases para um possível investida militar contra a Venezuela.

Para os céticos recomendo a obra: Bush VS. Chávez - La guerra de Washington contra Venezuela, escrita por Eva Golinger, doutora e advogada venezuelano-estadunidense que teve acesso a documento classificados entre os quais se acha o Plano Balboa – exercício militar conjunto simulado das forças da OTAN, supostamente realizado na Espanha. Este plano detalha o ataque a uma região hipotética produtora de petróleo, numa ação supostamente antiterrorista, a partir de territórios anônimos, com forças majoritariamente dos EUA.

Apesar de anônimos, o território inimigo tem todas as características da Venezuela e as bases de ataque se localizam em países cujas características coincidem com Panamá, Colômbia e Porto Rico (estado associado norteamericano).

A médio prazo, incrementar a ocupação da Amazônia.

Em relação ao golpe em Honduras, a guinada do Presidente Manuel Zelaya ameaçava a presença dos EUA naquele país com a proposição de transformar a base militar norteamericana de Soto Cano (Palmerola) em aeroporto internacional, com financiamento de um fundo da ALBA - Aliança Bolivariana para as Américas (veja artigo completo em: http://anncol-brasil.blogspot.com/2009/07/honduras-base-militar-dos-eua-no.html). O golpe em Honduras segue a mesma estratégia de expansão militar dos EUA na América Latina e Centro América. Aliás, esse golpe teve características muito similares ao golpe de abril de 2002, contra Hugo Chávez. Mera coincidência?

O papel de Obama nesse jogo

Ao que parece, a política intervencionista dos EUA chegou ao limite e havia necessidade de uma saída. Obama foi “criado” para isso. Eleito com a cumplicidade mundial para afastar o mal, representado pelos republicanos se constitui em um fôlego nas pressões que o mundo exercia sobre a política externa norteamericana. O fato é que nada mudou. E quem torceu a favor demora para começar a criticar.

Por outro lado, quem fabrica a máquina é que tem seu controle. Assim, Obama se mantém dúbio com relação aos acontecimentos em Honduras, apesar de saber que os militares golpistas já haviam tido vários encontros com o Embaixador norteamericano Hugo Llorens, bem antes do golpe.

Resta saber quem governa de fato os EUA. Seria por acaso Wall Street? Não podemos afirmar ao certo, mas que existe outro governo dentro do governo, existe. E isso é muito preocupante para o mundo.

E quanto ao Brasil?

Ao analisarmos o mapa de bases militares norteamericanas na América do Sul constatamos que, oficialmente, não existe presença de bases militares dos EUA no território brasileiro. Isso é bom, mas preocupante. Todo o mundo sabe que o potencial inexplorado de nosso país e bem maior que o da Colômbia. Todos sabem do interesse dos EUA pela Amazônia brasileira, por nossas jazidas minerais, nosso potencial energético. Aliás, com a omissão do Governo brasileiro, já se chegaram pelo Paraguai, implantando ali, a poucos quilômetros de nossa maior usina, uma base militar (http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/11/338331.shtml). E por último, o Brasil tem fronteira com a Venezuela

Portanto, os brasileiros, não devemos cair na ingenuidade de acharmos que como não desagradamos o antigo patrão ele não vai nos mandar açoitar. Tampouco devemos achar que Obama é simpático ao Brasil, ao Lula, ou coisa assim. Eles são campeões de tramas, subversões, intimidações e intervenções, e nós devemos nos cuidar. Nossa força reside na unidade latinoamericana. Além disso, a exemplo de Chávez, devemos fortalecer nossas fronteiras, reativar e aperfeiçoar nossas defesas, porque o “monstro” está se chegando, e com fome.

Celso Felizola.

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