O gigante anão ou o anão gigante?

Celso Felizola

Os últimos comentários da diplomacia israelense sobre a posição brasileira de qualificar os ataques de Israel à Faixa de Gaza como inaceitáveis motivaram a escolha desse título, que pode ser comparado a uma frase machadiana.

No entanto, o que se pretende aqui não é a discussão semântica da inversão das expressões, mas justificar, baseados numa reflexão histórica e conjuntural, a correção de uma e outra.

Historicamente, somos um gigante anão porque, apesar das dimensões territoriais que nos coloca entre os países de maior extensão do planeta, ainda estamos construindo pacificamente nosso futuro. Ainda temos muito pra crescer, e temos muito tempo pra isso.

Somos um anão gigante porque se comparados aos dois mil e seiscentos anos da criação da República Romana, ou aos quase três mil anos da Grécia Antiga, somos um país ainda jovem, anão;

Não vivemos a devastação das invasões de tribos vindas do interior, de povos do oriente, não sofremos as pragas do Egito nem com a Peste Negra. Nossa maior devastação e nosso maior extermínio vieram do norte, da chamada civilização, dos Deuses Gigantes que atravessaram o mar;

Somos gigantes depois de termos sido anões, porque sobrevivemos a duras penas, ao domínio português, espanhol, resistimos aos franceses, aos holandeses, ao domínio econômico inglês, e ao de seus substitutos, os Estados Unidos;

Somos gigantes porque estamos reconstruindo nossas relações com os demais países, agora baseadas em respeito mútuo e parcerias mais justas;

Somos considerados anões porque não temos vocação belicista: somos um país que defende a paz, o diálogo, a convivência pacifica, a não agressão, a justiça, as decisões dos organismos internacionais.

Fomos um anão gigante quando presidimos a Assembleia da ONU de 1948 e votamos pela criação do Estado de Israel, e quando fomos os primeiros a reconhecê-lo. Mas hoje, quando criticamos o massacre indiscriminado de um povo que luta pela sobrevivência com pedras. paus e armas artesanais contra poderosas armas de destruição massiva.

Não podemos, de jeito algum, concordar com o bombardeio de escolas, hospitais, refúgios de velhos e crianças. Tampouco podemos, como a imprensa, cha,mar isso de guessa. Porisso somos simplesmente um anão e digno de chacotas.

O mundo discute a queda de um avião malasiano em uma área de conflito na Ucrânia. Morreram 298 pessoas. Por que manteve a rota passando pela zona do conflito? De quem foi a culpa? A quem punir? Os fatos ainda são inconclusos, mas os EUA e alguns aliados já têm os culpados, e propõem sanções. E suas vozes ecoam por toda imprensa ao seu serviço.

Mas façamos um paralelo: os bombardeios perpetrados pelos israelenses na Faixa de Gaza a título de punir extremistas supostamente responsáveis pelas mortes de três jovens judeus já matou mais de oitocentos civis, entre eles mais de 190 crianças e 75 mulheres; deixou mais de 5.000 feridos, atingindo, inclusive as dependências da ONU para refugiados (UNRWA), conforme Adnan Abu Hasna, porta-voz daquela. "Desde o início da ofensiva, umas 22 dependências da UNRWA foram danificadas, em graus diversos. Em 2008, também foi bombardeado o prédio da nossa central. Ainda não dá para prever como vamos proceder em relação a isso." (http://noticias.terra.com.br/na-faixa-de-gaza-falta-tudo-alerta-onu,3cc8086177e47410VgnCLD200000b1bf46d0RCRD.html). Não seria isso Crime de Guerra?

Em momento algum negamos o direito de defesa de uma nação. O que censuramos é o que já está censurado pela ética e pelo bom senso.

Só para refrescar nossa memória vale lembrar que em 12 de janeiro de 2009, em Genebra, o Conselho de Direitos Humanos da ONU já havia condenado, por ampla maioria, a ação bélica desproporcional Israel na Faixa de Gaza. Nós não inventamos isso. Mas a exemplo dos EUA, esse país não respeita a ONU. E se não respeita essa organização internacional tão importante, por que respeitaria um país "insignificante" como o nosso, que não tem como referência a truculência, o assassinato seletivo ou em massa de velhos, mulheres, doentes e crianças, o genocídio, o extermínio de um povo objetivando a expansão territorial?

E assim, sem respeitar ninguém, esse "gigante da diplomacia e das armas", cego e surdo, com o apoio de seus aliados imediatos e tutores, e ante a cegueira conivente do mundo, segue cometendo seus crimes impunemente.

Os gigantes não têm mais pra onde crescer.

25/07/2014.

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