A Educação e os sofistas

Nova Iguaçu, 17 de julho de 2011.
Acabei de ler a entrevista deste senhor que se diz secretário de educação, mas que na verdade a única coisa que ele sabe fazer é sofismar e na pior acepção do termo.
A matéria gira em torno da tentativa de esconder da massa de leitores de um prestimoso veículo de comunicação a verdade sobre a situação dos trabalhadores da educação no estado do Rio de janeiro.
Em primeiro lugar os tais benefícios alardeados pelo senhor secretario não atingem os 51 mil servidores.
Analisemos cada um dos ditos benefícios de per si:


A - Os 4.500 professores que participam do programa de qualificação tiveram ontem a primeira aula. Durante o curso, cada professor vai receber bolsa no valor de R$ 300. E os outros 46.500, quando serão beneficiados? Não esqueçamos que participarão desse programa apenas os professores de português e matemática. Segundo o próprio secretário, o curso começou ontem (sábado. no primeiro dia do recesso (?)). Sendo assim ninguém ainda recebeu a tal gratificação.

B - O novo valor da gratificação paga pelo Difícil Acesso (R$ 300), deve ser "implementado" (neologismo) a partir de agosto.
Como será decidido quando a escola é de difícil acesso? Quem decidirá? Quantas escolas serão de difícil acesso? Vamos dizer que 10% das escolas estaduais sejam assim classificadas, isto é, 145 escolas. Num calculo rápido e bem genérico vejamos quantos professores serão beneficiados:
Se temos 51 mil professores e 1457 escolas podemos dizer então que, genericamente, teremos então 35 por escola. Logo 145 vezes 35 serão 5.075 beneficiados. Portanto, teremos de novo aproximadamente 45.925 professores excluídos de ganhos em seus contracheques.

C - Já a partir desse mês a GLP (Gratificação por Lotação Prioritária) será reajustada. Vai de R$ 514 para R$ 636. Adicional de 62%.
Aqui nós pegamos o senhor secretario falseando a verdade ou em esquecimento. Em matéria publicada no jornal O Dia em 08.06.11 às 01h32, assinada por ALESSANDRA HORTO, o secretario afirmou que, a partir de julho, a GLP passaria de R$ 516 para R$ 800,11. O que houve? Por que essa diferença para menos? O secretario não se lembra do que prometeu? Sua memória falha quando se trata de salário dos funcionários da SEEDUC? Será que sua memória falha quando é com as empreiteiras ou fornecedores?
Segundo a mesma matéria, os professores beneficiados foram 8.000 (pela informação dada à jornalista pelo secretario esse aumento foi pago na folha de junho que foi pago em julho, não ouvi nenhum professor comemorando o aumento). E os outros 43.000? Mais exclusão. Esse é o secretário da exclusão; todas as propostas geram exclusões.

D - Em 2011 os professores começaram a receber auxílio-transporte.
Nesse beneficio somente os professores em sala receberam a gratificação. Os extraclasses e apoio estão excluídos.

E - O auxílio-qualificação, de R$ 500, já foi entregue aos docentes.
Outro beneficio que somente os professores em sala receberam a gratificação. Os extraclasses e apoio estão excluídos.
A grande novidade, que não chega a ser novidade, pois toda vez que o governo se vê em dificuldade de completar a lotação das escolas eles tiram da gaveta o projeto de ampliação da carga horária.
O que se deve mostrar neste projeto é o sofisma do senhor secretário, isto leva a massa a pensar que está mudança é para o bem da educação e, por conseguinte, dos alunos. No entanto acaba por prejudicar ainda mais a educação de qualidade.
Vamos tentar entender o que estou dizendo: Ora se temos hoje professores que são contratados para trabalhar 16 horas semanais, estas horas são divididas em 12 horas aula e 4 horas de planejamento. E o salário hoje não é de R$ 836,00 como o jornal O Dia e o senhor secretário afirmam na matéria publica domingo, na realidade, segundo tabela publicada pelo próprio Jornal, é para junho -que se recebe em julho- de 765,66 menos os 11% do Rio Previdência para o professor nível 3 com formação superior; isso dá R$ 681,44.
A secretaria pretende ampliar a carga desses professores para 30 horas semanais e com um salário de R$ 1.560,00. Se as 30 horas forem em sala de aula os professores terão suas cargas aumentadas em mais de duas vezes e seus salário apenas uma vez. Além desta constatação salarial vamos ter professores com muito mais turmas, muito mais alunos, portanto com muito mais trabalho e salário de menos.
Vejamos um exemplo: sou professor de história na atual carga semanal de aulas eu tenho 6 turmas com duas hora/aulas por turma. Com o projeto que amplia a carga de aula eu passaria a ter 15 turmas por semana. Por baixo, dos 240 alunos que tenho hoje passaria a ter 600 alunos.
Alguém em sã consciência pode afirmar que esse tipo de projeto traz algum benefício para a educação? Não seria mais sincero da parte da SEEDUC dizer para a população que o que eles estão tentando resolver é a falta de professor e que a preocupação com qualidade da educação passa muito longe desse projeto?
Para encerrar, uma ultima observação e indagação: o senhor secretário afirma na entrevista que 90% dos professores que deixam a rede publica é por aposentadoria, porém em um artigo publicado por UOL educação em 26/08/2010 dá para se ter uma visão mais acurada desse fenômeno. Observe o gráfico feito a partir das informações colhidas no tal artigo:

O que mudou de 2010 até hoje? Quais foram as melhorias nas condições de trabalho que pudesse mostrar uma mudança dessas tendências? Mais uma vez o senhor secretário dá uma demonstração do seu poder de sofismar.
Segundo o artigo da UOL são mais de 11 professores perdidos pela rede publica estadual do Rio de Janeiro por dia. Nós, que estamos na rede, sabemos que nada mudou de 2010 para cá. Aliais, só têm piorado as condições,. Portanto, estamos muito próximos de um apagão na rede pública de educação estadual. Com esse projeto de aumento de carga horária deveremos ter uma maior debandada. Acredito que muitos colegas vão preferir as redes municipais que além de pagarem melhor, não terão uma carga de trabalho tão extenuante.
Espero ter contribuído para esclarecer e desmistificar os sofismas do senhor secretário de educação do estado do Rio de janeiro.

Luiz Antonio Nolasco Velasco, professor da rede estadual há 27 anos.

Voltar