Boletim informativo no. 3 – agosto/outubro de 2000

Esta é uma publicaçãodo autônoma do Centro de Intercâmbio Cultural “Martí Popular”. Equipe Editorial: Luiz Nolasco, Jorge Kafka e Celso Felizola. Publicação bimestral (ou quando possível). Tiragem: 200 exemplares.

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(Edição sem imagens)


Nossos Valores Política e Educação Cultura e Educação

História e Cultura :

A Revolta da Chibata (2)

Cultura e Atualidade : Quem lembra de... ROMILDO?

Movimento em Ação :

O Movimento dos Sem tetos...

Informes, Agenda e Outros

* As materias assinadas são de inteira responsabilidade de seus signatários.

Editorial

A Unidade Eleitoral e a Ética

Há algum tempo atrás escrevia um amigo nosso: “A unidade com fins de participar nas eleições tem se mostrado inconsistente: via de regra fracassa na ação, ou é sabotada deliberadamente por algum (ou alguns) dos setores envolvidos...” E continuava: “... mesmo nos casos mais duradouros, não se conseguiu resultados políticos que tenham significado avanços para as massas exploradas”. Hoje, passada a onda das eleições municipais, aproveitamos o ensejo para tecer algumas considerações a respeito desse fenômeno “democrático” à luz desse pensamento inicial. Foi notória e digna de debates em toda a imprensa (e também nas ruas) a vitória das oposições nestas eleições, principalmente do Partido dos Trabalhadores, cujo crescimento se caracterizou pelo acréscimo de prefeituras que passará a governar. Deixando um pouco de lado a euforia, poderíamos ver nesta vitória também uma válvula de escape para as elites dominantes, que “entregaram os anéis para não perderem os dedos”?... Senão vejamos: aqui no país já vai um longo tempo que não se consegue articular uma frente ampla capaz de fazer frente aos governos de descalabros e entreguismo que se instalaram no país depois da ditadura explícita. Aliás, diga-se de passagem, a última grande frente que se articulou aqui foi pelas “Diretas Já!” e esta não tinha como objetivo imediato as eleições, senão a derrocada do regime militar e o retorno à democracia burguesa. Em alguns países nossos irmãos, como é o caso do Uruguai, uma Frente Ampla governa cidades importantes com amplo apoio popular. Já no campo semi-institucional forja-se pelo norte de nosso continente o Movimento Bolivariano, e no ponto de vista clandestino, as FARC’s dominam 1/3 da Colômbia e a FZLN no México consolida-se enquanto movimento de resistência armada e alternativa de poder. No Brasil, se bem que tenhamos avançado conquistando um grande número de prefeituras, toda tentativa de frente no plano institucional foi sabotada de dentro e de fora. Se nesse plano a coisa é assim, imagine-se em outro plano como seria... O maior desafio que se coloca para nós talvez não seja apenas governar, mas criar as condições para se impor o tipo de governo que cremos ser o mais adequado para atender as necessidades da maioria de nosso povo. E isto só é possível com ele, o povo. Mas ele, o povo, só participa quando tem a certeza de que essa participação não serve apenas para referendar o que já está decidido. Fora isso, ele continua apenas como figurante , buscando tirar do espetáculo alguma vantagem, mesmo que transitória. Há uma grande tarefa que urge ser desempenhada por uma Frente Ampla de ação de massas: trocar a Ética na Política por Ética onde que se esteja; inclusive, e principalmente, dentro da própria esquerda.

 

 

Nossos Valores

Iniciamos esta seção falando de Berta Pereira Lima, com o objetivo de levantar a história desta mulher fantástica, exemplo de coragem e persistência para Uruguai, Cuba e Brasil. Entretanto, motivos de força maior nos fazem estabelecer uma pausa neste trabalho que com toda certeza deremos sequência em breve. Aproveitamos para expressar nossa alegria e informar aos companheiros que nossa companheira e amiga Olga Hernández se submeteu a uma cirurgia e esta se reestabelecendo magnificamente; recebeu recentemente a visita da Dra. Benedita, amiga de Cuba de São Paulo, que participou do último Encontro Mundial de Solidariedade a Cuba, agora no início de novembro, e de lá nos traz boas notícias. A companheira Olga estava levantando dados da vida de Berta, no período em que contribuiu diretamente com a Revolução Cubana, mas devido a esse contratempo não foi possível repassa-los a tempo para esta edição. Para nós é mais imprescindível a recuperação plena desta companheira. A equipe.

 

Preservar nossos valores, fator de resistência de nosso povo

Celso Felizola

Há um princípio maquiavélico que recomenda: dividir para reinar, mas um outro princípio também é praticado, desde há muito tempo, pelas nações conquistadoras: perverter para dominar. Foi assim na África, foi assim nestas terras de América., Primeiro vieram os espanhóis, seguidos dos portugueses, vieram os franceses, os holandeses, depois os ingleses e depois os norteamericanos. A cada tipo de invasão, uma nova forma de perverter, corromper e vulgarizar os mais nobres sentimentos de nosso povo. Hoje, conduzidos pela grande mídia globalizada, chegamos até a pensar que estes valores estão fora de moda, tal é a falta de compostura, moral e ética reinante em nossa sociedade. A palavra dada aqui não vale mais nada ali; o que se falou ou escreveu ontem, não vale mais nada hoje; o que se prometeu antes, já não é dívida depois. Isso sem contar com a vulgarização da violência, o incentivo à comercialização do corpo e à exploração comercial da sexualidade, ou seja, a promiscuidade. Será esse o nosso destino?

Não. Isso é o que tentam pedagogicamente nos fazer assimilar aqueles que querem se perpetuar no poder. Tentam nos fazer crer, enquanto povo, que não temos mesmo outro destino que não a tutela das nações “superiores”. Como fizeram com a África. Não é raro encontrar alguém da massa dizendo que os africanos não tem condições de progredir sozinhos porque só vivem se matando. É isso que querem fazer também conosco, países da América. Querem que acreditemos que somos um povo corrupto, sem tradições (a não ser aquelas que podem ser exploradas turisticamente), sem moral, incapazes de governar-se sem tutela dos Senhores. E para isso utilizam da mídia e (semelhantemente aos primeiros anos da invasão) de seus “capitães mores”. Mas tudo isso é falso. Basta uma simples vasculhada em nossa história para sabermos o valor do povo brasileiro.

A luta contra a dominação e a opressão sempre esteve presente no seio de nossa gente, assim como a luta pela defesa de seus mais nobres ideais. Se existe corruptos neste pais, não é a maioria de seu povo. Não fomos nós que inventamos a “lei do Gerson” (a lei da vantagem em tudo), os 10% nos empréstimos extrangeiros, os jetons, a compra de votos, as fraudes no INSS, os rombos na Previdência, as fraudes eleitorais (sic..), os esquemas PC, os Paraísos Fiscais, as contas na Suissa, os caixas 2, as privatizações, o juiz Lalau, o FMI e o Banco Mundial... Nada disso tem a ver com o povo brasileiro, um povo humilde, honesto e trabalhador (quando lhe dão oportunidade). Por isso, vivemos em um pais onde o governo nada tem de brasileiro, nada tem em comum com o povo, apesar de nos fazerem acreditar que vivemos numa democracia, e que o governo é nosso representante legíitimo. Até quando isso vais persistir? Por um lado temos a exaustão do sistema: “ninguém consegue enganar a todos durante todo o tempo”; mas isso não é suficiente, assim como não foi sufuciente trocar Sarney por Collor, Este por Itamar, ou tirar Fernando Henrique e colocar outro qualquer. Por outro lado, é necessário que tomemos consciência de que somos maioria, e como tal temos um poder, se jogarmos com nossas regras... e assumamos esse poder de forma definitiva, com a autoridade moral de sua história de lutas e resistência. Até lá, resgatar valores como dignidade, lealdade, solidariedade, auto-estima, resspeito mútuo e o saber são fundamentais para manter a nossa identidade cultural e cimentar nossa resistência a esse novo período de invasões.

O Plano Colômbia também ameaça a nossa soberania As chamadas nações desenvolvidas, as que primeiro sofreram as crises da estagnação econômica esgotaram suas fontes de recursos naturais e acorrem hoje para Nossa América declarando nossas florestas “Patrimônio da Humanidade”. Nas escolas secundárias dos Estados Unidos a Amazônia já não pertence ao mapa do Brasil, mas está marcada como “zona de interesse internacional” (leia sobre isso na próxima edição). O Plano Colômbia ameaça também o Brasil. Não à invasão USA.

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PT, ELEIÇÕES, OBRAS E ETC.

O Palácio do Planalto está em obras. O Presidente FHC mandou construir um revestimento acústico em todas as dependências, pois não aguenta mais o barulho ensurdecedor que vem das ruas após as eleições municipais deste ano. O povo disse um estrondoso não a sua política de submissão ao capital internacional, de desemprego, de fome, de miséria, de entrega do patrimônio público, de fala de ética na política, de corrupção (compra de votos para a reeleiçào, caso Eduardo Jorge, luiz Lalau, e etc e etc). A oposição, e o PT como seu principal partido, fez maioria absoluta de prefeitos nas granses cidades brasileiras. O que é uma demonstração clara de que a população quer uma nova maneira de administrar a coisa pública e de fazer política. Quer uma administração transparente, ética e que se preocupe em dar condições dignas de sobrevivência para uma enorme parcela de nossa população que se encontra hoje totalmente excluída do consumo de bens e serviços básicos, como alimentação, saúde, educação, transporte e etc. A grande vitória do PT nestas eleições pavimenta a estrada que leva à eleição presidencial de 2002. É necessário que os prefeitos eleitos façam uma administração competente e voltada para os reais interesses da população, aliás como tem sido feito nas cidades já administradas pelo partido, é isto que o transforma numa real opção de mudança para daqui a dois anos. No entanto, nem tudo são flores. No Rio de Janeiro e na nossa velha baixada, como diria o grande compositor e sambista Nei Lopes, a união do poder econômico espúrio com a jagunçada levou ao poder o que há de pior em nosso país e, portanto, teremos mais quatro anos de clientelismo, corrupção e exclusão da esmagadora maioria de nossa população. Aqui se faz necessária uma profunda reorganização do partido dos trabalhadores e da oposição democrática como um todo, no sentido de excluir aqueles que se apropriaram das estruturas partidarias para desenvolver o seu projeto político pessoal e se utilizarem da imagem construída por esses partidos em anos de luta. Esse trabalho deve começar já. A democracia e a justiça social devem deixar de ser simples retórica e sim uma construção coletiva. Povo e partido devem ser uma mesma coisa. Só assim o Estado do Rio de janeiro e a nossa velha baixada estarão para senmpre livre dos jagunços que por enquanto assaltaram o poder por aqui. A estrela da bandeira do PT não deve ser um guia. Mas sim seguir a luz que emana do povo organizado e consciente.

José Carneiro Soares

jcarneiro@ig.com.br

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Educação, política e cidadania

José B. Brandão, Prof. De Geografia

No contexto atual, em que se acentuam a violência, o desemprego e as mudanças no campo do trabalho põem os trabalhadores em situação dramática, torna-se necessário repensar mais profundamente o que está ocorrendo na esfera da educação, na representação política e no conjunto de elementos do sistema capitalista.

Em artigo anterior abordei a questão da educação relacionada à cidadania, mostrando as difenças gritantes entre os centros e as periferias do sistema capitalista, em especial abordando a questão da Baixada Fluminense. Neste artigo, pretendo chamar a atenção para o papel de uma educação voltada para a formação do sujeito político e, em parte, avaliar o nível de importância dada ao processo eleitoral como formador de novos sujeitos.

Quando nos referimos à educação devemos, primeiramente, pensar sobre quem produz o modelo de educação proposto, qual a finalidade e para quem ela está dirigida no processo de reprodução do sistema dominante. Em primeiro lugar, está claro que equivocadamente ou intencionalmente fala-se da educação escolar como motor de inclusão, quase responsabilizando-a pela totalidade da formação social; em segundo lugar, a educação escolar tem um forte componente de dominação por parte dos grupos hegemônicos do poder e avançou muito pouco na ruptura do modelo ideológico predominante. A educação política, em parte foi proposta em épocas de alguns avanços dos movimentos sociais, na pedagogia de Paulo Freire, mas teve pouco acesso aos espaços institucionais. A formação crítica, na educação escolar oficial, sempre foi profundamente limitada. Atualmente, o desencanto por caminhos profissionais adquiridos a partir da formação escolar é cada vez mais presente, principalmente em função da ausência de perspectivas para a inserção no mercado de trabalho. Não há dúvida de que a competição pelas fatias de mercado de emprego ou trabalho é cada vez maior e, mesmo que os trabalhadores contem com investimentos para a requalificação profissional e se aumentem os investimentos em uma educação de qualidade, os riscos de exclusão ainda estarão muito presentes, pois a sociedade que se forja não tem possibilidades de empregos e trabalhos _ precários ou informal _, para a sua grande maioria. O que se pode evidenciar são possibilidades de um crescimento de exclusão da cidadania ainda maior quando comparado com a sociedade industrial.

Diante desse quadro, canalizam-se todas as energias nos projetos eleitorais como salvaguarda para aliviar as chagas dos excluídos. É importante avaliar que, a crença cega em pseudo vitórias já levaram os trabalhadores à extremadas derrotas, principalmente, considerando-se as limitações na participação do processo político, a exemplo da representação parlamentar delegada à grupos ou pessoas com compromissos profundamente limitados com as transformações do modelo econômico e político dominante, ou anestesiados pelos cantos de sereia dos espaços de poder, esses, passaram simplesmente a administrar as enfermidades produzidas pelo sistema capitalista.

Administrar a educação, a saúde e outros bens coletivos com uma nova ética política é importante, mas é muito limitado se não estiver profundamente inserido nas bases da população objeto da exclusão econômica e social. É preciso que não se aplique apenas anestésícos em feridas enquanto as causas vão produzindo outras doenças, ou seja, é preciso não se perder em resolver os problemas gerados pela espoliação do sistema, mas apontar para mudanças mais profundas e criação de novos meios e formas que levem à uma transformação estrutural, evitando-se que a barbárie se amplie e domine todos os tecidos da sociedade. Neste sentido, tanto a educação através da escola como a participação política através do atual sistema eleitoral têm profundas limitações na construção de uma cidadania digna e consciente. Mesmo avaliando-se as possibilidades de chegar ao governo central em 2002 e contando-se com forte base parlamentar, necessita-se criar e fortalecer outras bases legítimas de poder local, autônomo e independente, de fato democráticas, no sentido de avançar na construção de um novo modelo político.

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Educação no Brasil, um privilégio de poucos

Jorge Kafka

Os nossos primeiros educadores foram os jesuítas. Eles se dedicaram à educação e à catequese, em escolas elementares, onde ensinavam leitura, escrita, as quatro operações e música às crianças portuguesas e aos índios. O padre José de Anchietapublicou em Coimbra a primeira gramática tupi, em 1595. Mais tarde ampliou-se o ensino secundário (só para sacerdotes) e até superior em colégios, como o Colégio da Bahia. No século XVIII, em 1759, o Marquês de Pombal expulsou os jesuítas, provocando um colapsono ensino do Brasil, mas no final desse mesmo século um sentimento nativista aflorou numa elite brasileira que surgia e sonhava em conquistar a independência. Como fato desse sentimento aconteceu a Conjuraçao Mineira. Com a chegada da Família Real, houve uma transformação cultural no Brasil. Criou-se a Imprensa Régia, o primeiro periódico “Gazeta do Rio de Janeiro”, a Academia dos Guardas-Marinha, a Academia Real Militar, cursos de Cirurgia, Anatomia e Medicina, na Bahia e no Rio de Janeiro. Criou-se também no Rio o Jardim Botânico e instalou-se a Biblioteca Real, com 60.000 volumes que vieram da Biblioteca da Ajuda. Em 1816, o Conde da Barca trouxe ao Brasil a Missãoi Artística Francesa, que cria a Real Academia de Desenho, Pintura, Escultura e Arquitetura, que mais tarde se transformaria em Escola Nacional de Belas-Artes. Todo esse progresso cultural visava a atender as necessidades da realezaburguesa que aqui se estabeleceu, esquecendo-se por completo da educação do povo. Depois da Independência, as discussõpespara a elaboração da Constituição trouxe à tona preocupações mais sérias e concretas pelo ensino no Brasil. E nela o artigo 179 dizia: “a instrução primária é gratuita para todos”. O sistema e o programa de ensino implantados, não deram resultados e as reformas de ensino se multiplicaram durante todo o Período Imperial, caracterizadas por um idealismo, porém afastadas da realidade nacional. Em 1870 o educador Paulino de Souza alertava: “O Brasil é o país do mundo que menos gasta com o ensino”. Essa afirmativa (pasmem) continua valendo até agora, no início do século XXI. (Continua noa préxima edição)

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A Revolta da Chibata (parte 2) João Cândido, um brasileiro

Celso Felizola

Farta literatura tem abordado inúmeros aspectos da Revolta que abolui definitivamente os castigos físico aos marinheiros da Marinha do Brasil. Em algumas delas, o esforço para mostrar João Cândido Felisberto, o lider da Revolta da Chibata, como um personagem confuso e contradraditório é bastante evidente. É inegável que ele sobreviveu em condições muito adversas: primeiro, nas masmorras da morte, onde o encerraram com dezoito companheiros, donde só saíram ele e mais um (vide edição anterior); depois, no período que vai desde a sua expulsão da marinha até as vésperas de sua morte em 1969, quando teve que dar duro para sustentar sua família e ainda superar o desdém da Marinha. Não se julga um homem sem conhecê-lo e principalmente, sem conhecer a sua história. A história que João Cândido ajudou a construir é incontestável: em 22 de novembro de 1910 ele, liderando um grupo de marinheiros tomaram o comando dos navios mais importantes da poderosa Armada brasileira, apontaram os canhões para a cidade e exigiram o fim de anos e anos de maus tratos e humilhações impingidos pelos oficiais a seus subalternos e a anistia para os revoltosos. Este fato histórico, não assumido oficialmente pela Marinha até hoje, está incorporado à cultura popular dos marinheiros, que em pequenos grupos, vez por outra, referem-se com orgulho e gratidão ao episódio. Faz parte do consciente coletivo da marujada. Essa ousadia, essa coragem, não pode ser confundida com ingenuidade, nem revela traços de mau caráter. Em sua viagem pela Inglaterra aqueles marinheiros sabiam muito bem o que os esperava: os marinheiros da europa não falavam em outra coisa senão no episódio do encouraçado Potenkin. Sabiam, pelo contato com os marinheiros ingleses que o destino dos revoltosos russos foi o exílio ou a morte. Sabiam também do tratamento que a conturbada República costumava dar aos revoltosos, culpados ou não, principalmente aos pertencentes às camadas popularesdas populares: o fuzilamento sumário. No episódio da Revolta da Armada, movimento puxado pela oficialidade na disputa da partilha da República, sufocada a revolta, o Governo Floriano mandou fuzilar sumariamente centenas de marinheiros enquanto outros tantos desapareceram sem deixar rastro. Os oficiais que participaram do levante hoje são heróis da marinha (a exemplo de Custódio de Melo, que é até nome de navio). Não. Este desapego à vida não foi ingenuidade, assim como não foi conciliação depor as armas depois do acordo. Não se pode julgar a ação de um homem sem que se possa imaginar ao menos o contexto. Um movimento minuciosamente calculado não poderia deixar-se envolver tão facilmente. Mas na verdade a honradez e a dignidade do homem simples do início do século não pôde conceber o que de covardia e falsidade se acobertava por trás dos elevados ideais da República a que servia. Isso de acreditar no seu semelhante não diminui o homem simples, pois continuará a ser o farol da história concreta de nosso povo; enquanto seus algozes, os falsos heróis, pertencem apenas aos papéis, aos livros publicados por eles mesmos ou seus sequidores; mas como papéis velhos, seus destinos é o lixo. João Cândido, homem simples, amava a Marinha. “Nasceu marinheiro”, e mesmo expulso, negado pela historiografia da Marinha, continuava a ser marinheiro. A Revolta da Chibata não foi um movimento contra a Marinha, mas em favor dela, de sua dignidade. O zelo que os revoltosos tiveram com os navios e equipamentos foi prova disso. Os avisos que davam aos oficiais através de bilhetes anônimo demonstravam isso; o descaso dos oficiais (hoje heróis oficiais) os tornou os verdadeiros culpados pela deflagação da Revolta. A única magoa de João Cândido foi nunca ter sido reintegrado à Marinha, sua verdadeira paixão. Quem não é capaz de entender isso não tem o direito de opinar sobre o herói negro, que excluído da Marinha, viveu 59 anos de sua vida em um bairro pobre, numa casa, humilde da baixada fluminense; que trabalhou 49 anos descarregando barcos de pesca na Praça Quinze, trabalhando pelas madrugadas, nos porões cheios de peixe e gelo, mas que quando descoberto por um Governador do Rio de Janeiro e este lhe pergunta o que deseja para si e sua família ele responde: se quer ajudar me ajude a construir um lugar pra nós morar. Assim, depois de traído, aprisionado, de terem atentado contra sua vida, assassinado seus companheiros, internado em um hospício, expulso da Marinha e abandonado à própria sorte, o herói continua nobre, leal e honesto. Que exemplo para as nossas gerações tão carentes de referências, de valores. Juntemos nossas vozes e nossos corações: João Cândido, se a Marinha ainda não o reintegrou, no seio da marujada você será sempre herói, no seio do nosso povo, um exemplo para todas as gerações.

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Há muito tempo nas águas da Guanabara...

Salve o Almirante Negro!

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Quem lembra de... ROMILDO?

FURANDO FILA

(Sergio Fonseca)

Acertei minhas contas com o destino,

não deixei de ser menino

nem mesmo por um segundo...

Assim, foi assim que, sem querer nem saber, acredito ter definido o espírito simples e irrequieto de meu parceiro Romildo, num samba que nunca foi gravado e que se chama Estaca Zero. Agora a lembrança se agita e eu o vejo, eternamente menino, recém-chegado de Recife, na década de 50, numa família de mãe e três irmãos: D. Amélia, Lenira, Ademir e ele. Mais que todos por sua verve comunicativa rapidamente ele ganhou a amizade de seus pequenos vizinhos da rua Marte, em Mesquita, e o apelido nos campinhos de futebol: Pernambuquinho. Samba no bico, bola no pé, entre nós, ali ele pernambucou o seu resto de infância parte da adolescência. Depois, por coincidência, foi morar numa casa onde eu já havia morado e onde morrera minha avó paterna, por trás do campo do União, na rua Alpinos. Assim, o mesmo teto nos abrigou ainda que em tempos diferentes. Era imprevisível, obstinado e um dos melhores compositores em nível melódicos dessa geração que floresceu na década de 70 e formou inclusive, no Rio de Janeiro, um movimento de samba chamado Grupo de Ouro, embrião, a nosso ver, da criação do Clube do Samba, de João Nogueira. Lembro que a primeira reunião desse grupo se deu na rua Torres Homem, em Vila Isabel, casa de Toninho Nascimento, seu melhor parceiro e conm quem Romildo faria músicas inesquecíveis e uma enfiada de sucessos: Conto de Areia, Ela não gosta de Mim, Deusa dos Orixás, Flor Misteriosa, Primeiro eu. Havia o casamento perfeito entre uma letra lírica, leve, inteligente, puro sentimento e a musicalidade densa de Romildo, para a qual confluía toda a vertente de ritmos populares brasileiros que, de contrabando, ainda garoto, ele trouxera das ruas do Recife. Antes de se firmar como compesitor, trasnsitou ele ainda na Portela como passista, integransdo a famosa Ala dos impossíveis onde com Bibiu e Anselmo formou um trio de respeito a que o folclore portelense reverencia volta e meia. Muita coisa se conta sobre ele e se contará, visto que dificilmente será esquecido. Eu mesmo, certa vez, instado por Adelzon Alves para defini-lo. no ar, tentei: - O Romildo é um sugeito que leva três horas para sair de casa e três dias pra voltar. No entanto, quem melhor fixou seu perfil, para mim, foi Catoni, no momento em que Romildo era enterrado, no Jardim da Saudade de Mesquita. Ainda que infeliz o momento, a frase cintilou em nossos ouvidos, meio queixa, meio repreensão:

- O Romildo sempre com essa mania de furar fila.

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O MOVIMENTO DOS SEM TETO: ALGUMAS REFLEXÕES

Júlia Adão Bernardes*, Luís Henrique Ramos de Camargo* *,

Introdução

A atual dinâmica capitalista revela-se um processo de expansão excludente, especialmente nas economias periféricas, tendendo a gerar o acirramento de conflitos. O Jornal do Commercio de 27/01/2000 ilustra esta situação com dados sobre o desemprego no Brasil. Em 1990 o país ocupava o 8o lugar do mundo em número de desempregados, em 1995 o 5o lugar e, atualmente, o 3o, só sendo superado pela Índia e pela Rússia. Dados do IBGE, sobre salário, publicados no mesmo jornal, em 16/01/2000, reafirmam a tendência à queda do valor real do salário e da concentração de renda em alguns estratos sociais. Entre 1994 e 1998 a participação dos trabalhadores na renda do país passou de 47% para 37%, ganhando mais de 40% da população menos de 2 salários mínimos por mês. Segundo o DIEESE, o salário mínimo do brasileiro caiu de 140 dólares, no início do governo Fernando Henrique, para aproximadamente 70 dólares no final de 1999. A recessão que tomou conta do país, fato vinculado à orientação da política econômica brasileira, que se subordina às exigências do Fundo Monetário Internacional, vem acarretando arrocho salarial e desemprego, gerando graves repercussões na esfera social. As marcas das políticas nacionais, seja no que se refere a salário, emprego, saúde, educação e habitação, atingem o município do Rio de Janeiro, cujo crescimento demográfico observado no período 1980/1996, da ordem de 9,05 %, implicou na agudização do processo de periferização da cidade, que se expressa numa paisagem de dispersão de base pobre, ao lado de uma urbanização hiperconcentrada em áreas privilegiadas (RIBEIRO, 1999:8). Assim, ampliam-se as áreas para onde se dirigem os estratos em situação de pobreza e miséria, em direção a determinadas periferias, como a Zona Oeste do Rio de Janeiro, ou em direção à Baixada Fluminense. Nesse contexto, os setores mais atingidos pela pauperização e o desemprego desenvolvem ações diversificadas, entre as quais se destacam as ocupações, fenômenos que expressam a reação dos mais atingidos. Portanto, os conflitos vinculados à habitação dos grupos sociais excluídos são resolvidos através do enfrentamento social, a exemplo do Movimento dos Sem Teto, expressando formas de articulação organizada que revelam a falta de canais reais, através dos quais esses segmentos possam manifestar as suas aspirações. O problema da habitação popular no contexto do processo de urbanização, aparece neste esforço teórico como uma forma da expansão capitalista, constituindo o modo como as classes subalternas tentam resolver o seu problema, através de eventos mobilizadores. Convém ressaltar que este trabalho constitui simplesmente um ponto de partida para a análise da problemática. Lutando pela moradia Para entender o que acontece hoje na área da chamada habitação de baixa renda é necessário situar-se no que acontece atualmente no país. Na atual fase da dinâmica capitalista as grandes cidades e regiões metropolitanas estão sujeitas a um novo modo de urbanização e a produção do espaço urbano se configura segundo o que é oficial e o que é autônomo em relação à máquina do Estado e aos interesses das diferentes frações do capital. As grandes cidades e as grandes metrópoles ganham novas dimensões e novas funções a partir de relações transformadas que incluem tarefas ligadas à produção globalizada. (Continua na próxima edição).

* Professora do Programa de Pós-Graduação em Geografia, UFRJ. ** Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Geografia, UFRJ. Participação da Doutoranda Lilian Gama, dos bolsistas Osny de Luna Freire Filho e Roberta Betarruzzo, bem como dos alunos da disciplina Sociedade e Natureza de 1999, na realização do trabalho de campo.

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25 de novembro, 14:30, Instituto de Educação Rangel Pestana - Nova Iguaçu De Zumbi a João Cândido - A Luta de um Povo.

Participe!

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Informes do CIC “Martí Popular”

Pré - Congresso discute Educação - Sob o lema Eduacar pra que?

O Centro de Intercâmbio Cultural “Martí Popular” realizou em setembro último o seu IV encontro de Educação. Diferentemente dos três encontros anteriores, que aconteciam após o regresso dos educadores que participavam do Congresso de Pedagogia que ocorre nos anos ímpares em Cuba, o Martí Popular da um salto a frente, antecipando algumas discussões. O evento foi considerado muito, na medida em que afregou um numero significativo de peofessores, animadores culturais e outras pessoas envolvidas com a educação. Fato relevante tem sido a presença constante de um n enorme número de alunos dos cursos de Formação de Professores que como parte em transição do processo (passam de alunos a professores), deram uma rica contribuição às discussões: ao mesmo tempo em que passavam suas inquietudes e apontavam falhas em sua formação, serviam-se das experiências dos mais antigos e ganhavam noção das dificuldades que irão encontrar no futuro próximo, no exercício da nova profissão. O resultado desse trabalho está sendo compilado e será apresentado como um trabalho coletivo no Pedagogia’2001, em Cuba. Quando do regresso de nossos companheiros esperamos realizar o Pós Congresso, onde serão socializadas as experiências e repassados os resultados de todo esse trabalho.

O Congresso em Cuba

Como todo ano de congresso o Martí Popular contribui para a mobilização e organização de uma delegação do Rio de Janeiro, majoritariamente da Baixada. As dificuldades são muitas: taxa de câmbio, baixos salários dos professores, altos preços dos pacotes. Com relação aos preços, um agravante foi o recente aumento das passagens internacionais. Desta vez, diferentemente dos anos anteriores, existe em média cinco companhias aéres oferecendo passagens para Cuba: Avianca, Aeroméxico e Mexicana de Aviación, operadas pela Varig, Copa e Cubana de Aviación (as que conhecemos); destas o preço mais acessivél é o da Cubana, que voa direto de S. Paulo a Havana e custa em média 400 dólares mais barato. O incoveniente é que este vôo sai de Havana na sexta feira, antes de encerrar o Congresso, enquanto que os outros saem no sábado. Estamos tentando outras alternativas, como seguir pela Cubana, mas permanecer mais sete noites em Havana. Fica um pouco mais caro mas compensa. Maiores informações contate-nos, ou uma agência de viagens..

Aos 90 anos da Revolta da Chibata e por ocasião das comemorações do Dia da Consciência Negra estamos desenvolvendo o projeto De Zumbi a João Cândido - A luta de um Povo, com eventos em várias escolas da região, tendo como elemento articulador o Martí Popular. a Culminância será no dia 25 de novembro, a partir das 14:30, no Instituto de Educação Rangel Pestada, com a participação da D. Zelândia, filha de João Candido.

Salve o Almirante Negro! Veleu Zumbi!

Até o próximo.

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