CENTRO DE INTERCÂMBIO CULTUTAL

MARTÍ POPULAR

http://www.martipopular.org

 

Boletim informativo - no 2 – maio/julho de 2000

Próximo Boletim

 

Leia nesta edição:
Nossos Valores: 

* Berta Baptista Lima, determinação caráter, garra

Política e Educação: 

* Como se faz um vereador? (concl.)

* Educação e Cidadania

Política e História:

* Revolta da Chibata (1a. Parte)

* Queremos paz!;

Política e Cultura: * Quem lembra de João Cândido?

* Quem lembra de João do Vale?

* De quem é a Culpa, Sr. Presidente? 

Movimento em Ação: * * SEPE denuncia manobra do Governador

* Martí Popular em BH 

 

Editorial: 

Em quem você vai votar?

· ; vamos levantar esta história.

· ;

Educação e Cidadania .

· .

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· :

Informes da Assembléia Geral;

Comunicado do Centro de Intercâmbio Cultural “Martí Popular” sobre o Pré-Congresso 

 

Esta é uma produção autônoma. 

Órgão de divulgação do Centro de Intercâmbio Cultural "Martí Popular" Equipe de redação: Celso, Luiz Nolasco, Jorge Kafka. As matérias assinadas são de responsabilidade de seus signatários. Publicação bimensal (ou quando viável). Distribuição gratuita. 

 

Editorial 

E quem você vai votar?

 Tiroteio, guerra de traficantes; policia sobe o morro – enquanto uma banda sobe a outra desce -, alguém perde um olho, a vida; manifestação pela paz na zona sul; corrupção nas prefeituras, câmaras de vereadores, assembléias legislativas, câmara federal, senado, chega-se até ao planalto; nem uma gota no presidente (?). Privatiza-se tudo (ou só o que dá lucro?) Cresce o desemprego e a violência. Solução? Armar melhor a polícia, aumentar o contingente policial – em qual das duas bandas se deve investir mais? – cassar políticos corruptos, que sempre voltam à cena, desarmar a população; mas continua o programa de privatizações, e o governo, com o apoio do congresso, corrupto ou não, continua a ditar regras e tratar o povo brasileiro como lerdos, capiaus, débeis mentais e outros adjetivos não publicáveis; e a entregar aos conglomerados econômicos multinacionais todo nosso patrimônio nacional. Salário mínimo irrisório (pouco mais de US$70,00), tarifas dolarizadas; inadimplência, desemprego, SPC, CERASA, fome e violência. Aumenta a polícia, armas e munições; crescem as duas bandas. Mas só as duas não dá; que tal fazer como a telefonia celular? Cria-se também a banda C (ou Q)!!! Mas antes tem que privatizar. Toda essa enfermidade, dizem os entendidos em democracia, tem um jeito: é só saber votar. Daqui há quatro anos, o mesmo discurso. Por sorte muitos já esqueceram tudo. Artimanhas para isso não faltam: futebol, seleção (opa!), televisão exibindo bumbuns quase desnudos e balançantes... carnaval! Ah, este sim, engloba tudo!.. dá amnésia total durante quase três meses... O resto fica por conta das eleições; afinal, a eleição é a panacéia transitória, mas repetitiva, da democracia burguesa.

Mas, em quem votar? Depende: a massa vota em quem diz a maior mentira de modo mais convincente; o povo vota nos candidatos mais próximos às suas aspirações como cidadãos, mas esses estão muito longe de se elegerem (e se o conseguem, ainda há o risco -e grande- de mudarem de lado). Mas afinal, para a maioria da população o voto não muda muita coisa além do que é necessidade inerente à própria evolução do sistema. Por isso o sistema investe tanto nesse tipo de democracia. Milhões em propaganda são gastos pelos candidatos, milhões de reais gastos em urnas eletrônicas descartáveis, e agora, temendo os altos índices de abstenções e votos nulos, que “manchariam” os resultados da “festa”, produziram e estão levando ao ar uma (ou outra) novela eleitoral!!!

Só para citar uma outra realidade, em Cuba, onde ser parlamentarestá ligado a compromisso comunitário, civismo e trabalho ( e não a status, favores, dinheiro e corruptelas) onde as más línguas falam de ditadura, nas eleições de 2000 para as assembléias municipais votaram 98% dos eleitores, foram eleitas 20,93% de mulheres em todo o país (3.074), 1.385 jovens menores de 30 anose reeleitos 48,75% dos delegados. Os votos nulos e brancos somaram 2%. 

 

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NOSSOS VALORES

 

Uma das fontes de inspiração do Martí Popular, Berta Baptista Lima teve uma vida permeada de lutas, desejos e aspirações. Seu exemplos de justiça, solidariedade, garra e determinação deve somar-se aos de tantos outros que nos impulsionam na luta por um mundo melhor. 

A história do Martí Popular está intimamente ligada a Berta, pois foi ali em seu sitio, em Vila Camorim, em Jacarepaguá, e que ela em vida havia colocado à disposição de Cuba, que no dia 28 de janeiro de 1995, quatro anos após sua morte,ocorreu a primeira reunião com Olga Hernández, sua amiga cubana, quando desabrochou, como uma rosa branca (coincidentemente também desabrochou uma flor), a idéia do que é hoje o Centro de Intercâmbio Cultural “Martí Popular”. 

Buscando ressaltar os melhores valores de Nossa América, recolhemos alguns dados sobre Berta Baptista, que não chegou a conhecer a idéia do Martí Popular, mas se viva, a abraçaria prontamente. Nesta busca contamos com a colaboração efetiva do companheiro Nando Murra, uruguaio, que com sua família conviveu com Berta durante os últimos anos de sua vida. Contamos também com as informações passadas por Olga Hernández, sua entranhável amiga. Mas o trabalho ainda está começando e estamos fazendo um apelo a quem a conheceu (ou tem material referente a ela) para que entre em contato conosco.***

 

Berta Baptista Lima

Nando Giulio Murra

Alguém já disse que a história é algo que, ainda que não saibamos, todos ajudamos a construir. Em particular, algumas pessoas vivem com tanta intensidade que, mesmo não estando mais presentes, continuam ajudando a construir a obra que sonharam. Este é o caso de Berta Baptista Lima, sobre quem tentamos resumir algumas passagens de sua vida.

Berta nasceu no Uruguai, no Departamento de Paisandú, em 1932. desde cedo, foi para Montevidéu, onde concluiu os estudos e começou a militar solidariamente pelas causas que considerava justas.

No início da década de 60, Berta militava na Frente de Izquierda de Liberación (FIDEL) e trabalhava na Universidade da República. Nesta época, o entusiasmo da Revolução Cubana se espalhava pelo mundo e chegava até o Uruguai, e até Berta. Nesses anos de lutas e esperança, depois do triunfo da Revolução, Fidel Castro e Ernesto “Che”Guevara percorreram vários países da América Latina, inclusive o Uruguai e o Brasil. Em Montevidéu, Fidel e o Che participaram de um grande encontro no edifício central da Universidade da República; entre os muitíssimos presentes estava Berta.

O contato direto com os protagonistas da Revolução Cubana foram decisivos para que Berta se apaixonasse pela idéia de viver na Ilha. Em 1962 Berta viajou a Cuba para ficar.

Ela contava com entusiasmo a alegria de ter compartilhado esses primeiros anos da Revolução com o povo cubano: a transformação das mansões em escolas e postos de saúde, os novos problemas e as soluções originais, o trabalho voluntário, as crises internacionais e tantas outras histórias...

Em Cuba, Berta trabalhou em vários lugares, inclusive como secretária do Conselho de Estado. Assim, foi testemunha de muitas reuniões decisivas para os destinos da Ilha. Sobre essa época, gostava de contar passagens cotidianas como a de um dia em que distraída de seus afazeres, pela janela olhava o Che andando pelo pátio do Palácio da Revolução; então ele parou, dirigiu-lhe o olhar, e gesticulando com os dedos sugeriu gentilmente que ela voltasse a datilografar.

Nos anos seguintes, Berta foi convidada a trabalhar no Ministério da Cultura com o Dr. Nuñez Geménez. Foi chefiar um Departamento de Artes Plásticas, responsável pelo ensino e a construção de acervos. Ali conheceu uma companheira de trabalho e uma amiga para a vida inteira: Olga Hernández. Berta e Olga cultivaram uma amizade que nem a distancia nem o tempo separou.

No início dos anos 70, Berta decidiu voltar para o Uruguai. Como disse José Martí, a obra de uma pessoa deve estar onde ela for mais útil; e Berta acreditou que no momento de luta que seu país atravessava, ela seria mais útil lá.

Poucos dias antes de partir de Cuba Berta andava pelas ruas de La Habana carregando uma mala que iria usar na viagem, quando avistou Fidel, em carro aberto, parado num sinal. Berta correu em sua direçãogritando: “¡Fidel, me voy para el Uruguay!” ; E, depois da surpresa inicial, ele respondeu: “Saludos a los muchachos”. No Uruguai, Berta se integra à luta armada no MLN Tupamaros. Mais tarde, conheceu o exilado brasileiro Jaci Pereira Lima, com quem contraiu matrimônio.

Durante a luta, Berta é presa; Jaci, perseguido pela ditadura brasileira até o Uruguai, consegue sair do país e se exila no Vaticano. Berta sofre os horrores que a ditadura impunha aos seus inimigos. No entanto, nem a prisão , nem as torturas conseguiram dobrar o seucaráter forte. Através de um salvo-conduto Beta consegue sair da prisão e viajar para o exílio na Itália onde reencontra seu esposo. Juntos trabalham alguns anosensinando artesanato em escolas do Vaticano.

Da Itália Berta acompanhava os desafios que Cuba enfrentava e cultivava o desejo de voltar.à Ilha, lugar, como dizia,onde tinha vivido os melhores anos de sua vida.

(Continua no próximo número)

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Política e Educação

 

Eleições 2000, como se faz um vereador? (conclusão)

Celso Felizola

 

Imaginemos por um instante como seriam nossos municípios sem o voto obrigatório, sem aquele orçamento para a Câmara de Vereadores, os altos salários, jetons, sessões extraordinárias, e todo o aparato que possibilita com que os edis, mesmo os provenientes de camadas mais simples da sociedade (e isso é raro), passem a desfrutar de benesses e a fazer do mandato uma aspiração permanente, um busca constante por canalizar esforços no sentido de criar em torno de si um elenco de colaboradores (assessoria) que dividam entre si as migalhas que caem da mesa do banquete.. Trabalho comunitário? Só o que visa manter ou consolidar as bases para as próximas eleições. E assim, com as eleições burguesas e seu sistema “democrático” não muda nada (ou quase nada), de quatro em quatro anos a parafernália se repete; e nesse intervalo, o povo é apenas espectador passivo. Como disse anteriormente, podia ser diferente..

Estive em Cuba em janeiro último, passei um mês lá e vi como funciona um sistema verdadeiramente democrático. A casa que me recebeu funciona como sede do CDR (Comitê de Defesa da Revolução), fração do poder popular local. A casa onde fica o médico de família pode-se ver da janela, o dentista mais aa frente, e andando-se 100 metros, uma escola. Não há necessidade de clientelismos.

Me disse uma senhora moradora do prédio: “nos reunimos toda semana e nosso representante senta conosco, ouve, discute, presta contas, explica, anota. E assim as coisas vão sendo resolvidas. Se não estamos satisfeitas com ele o demitimos e substituímos por outra pessoa... Este é jovem e muito responsável e trabalhador... ele não quer, mas vamos reelege-lo”.

Soube, há 1 mês atrás, que ele foi reeleito para mais um mandato.

É claro que Cuba não é Brasil. Aqui, neste momento, centenas de candidatos a “representantes do povo” percorrem os bairros, rua após rua, ávidos por votos dos incautos. Batalhões de cabos-eleitorais a soldo, carros de som,galhrdetes, “outdoors”, faixas importunam a vida alheia visual e auditivamente. Empastelam postes, sacadas, viadutos, muros, perturbam a vida e o visual da cidade. O processo é tão democrático quanto são verdadeiras as propostas e declarações dos candidatos. O dinheiro corre sem ser contabilizado, ninguém sabe quanto gastam, os limites de gastos são uma brincadeira que nem o tribunal eleitoral pode controlar.

O abuso de poder econômico (do capital) é passível de punição porlei (do capital). Há candidatos das últimas eleições que foram autuados por abuso de poder econômico, foram eleitos,entraramcom recurso e já estão completando os mandatos sem que tenham sido punidos. Afinal, como vão cassar (se for o caso)um mandato que já foi cumprido?Isso não é mais hilariante porque é trágico para aqueles que foram regidos durante quatro anos por leis votadas por parlamentares fraudadores. Assim como não é hilariante por ser revoltante ouvir, como eu, um candidato prometendo em um carro de som, saúde e educação para todos.

No final de tudo a maioria das Câmaras de Vereadores e Prefeituras será constituída por gente dessa espécie. Até quando? O povo decidirá.

Educação e Cidadania

* José B. Brandão

Além da educação escolar, para ser cidadão entendemos ser necessário uma compreensão social e política do mundo em que vivemos e, que essa formação, quase sempre não se adquire dentro dos muros escolares tradicionais. As dificuldades para o acesso à educação de qualidade por parte das populações mais pobres torna-se cada vez mais difícil, e a velocidade das mudanças técnicas aumenta ainda mais o fosso entre pobreza e riqueza. A bárbara modernizaçãoaumenta o grau de frustrações daqueles que olham as vitrines do consumismo mas não têm nem sequer o mínimo para a sobrevivência. 

Enquanto sabemos que hoje um segundo grau é o mínimo necessário para conseguir algum emprego ou trabalho, os dados indicam que no Brasil, apenas cerca de 17% de sua população completa o segundo grau e, cerca de 3% o curso universitário. Nos países centrais, mais de 60% conclui o 2o grau e 30% a universidade. Na Baixada Fluminense a situação é ainda pior. Cerca de 5% chega ao finaldo 2o grau e nada mais do que 1% conclui a universidade. Se considerarmos que o nosso ensino também é de pior qualidade, a situação se agrava ainda mais. O fundo da questão está no fato de termos uma sociedade injusta. Enquanto as elites, que se constituem sempre de minorias, vivem abastadas, sobrando caviar, ensino de qualidade,garantia de renda até a milionésima geração, os trabalhadores assalariados ou sem salário dependem de favores para conseguir uma vaga em uma escola pública, que também não garante nenhuma segurança para o futuro.

Mas nem tudo está perdido. Nesse mundo que parece caótico também há alternativa.Há saída para os que se dispõem a lutar investindo com firmeza nos estudos e aliando-se aos que buscam um futuro melhor. É bom lembrar que o velho filósofo dizia que "pensar é existir" e o filósofo atual diz que "é preciso pensare sonhar".Não é fácil caminhar por caminhos tortuosos e cheios de espinhos, porém, é mais fácil vencer barreiras quando damos as mãos e temos consciência dos obstáculos e, acima de tudo, fortalecemos os laços de união entre os que enfrentam as mesmas dificuldades.

  • José Bertoldo Brandão é Licenciado em Geografia.
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A Revolta da Chibata - 1a. Parte

 

 

Poderosos navios, fabricados na Inglaterra, faziam do Brasil o país mais poderoso no Atlântico sul. Entretanto, A herança dos sistema escravista, o conteúdo de classe e os papéis bem definidos dentro dos quadros da marinha faziam com que uma maioria compostas de pobres,negros e mulatos recrutados à força fosse submetida por uma minoria de oficiais brancos, que decidia e aplicava as leis a seu modo emaneira. A situação de semi-escravidão caracterizada por baixos salários, excesso de trabalho e castigos corporais (estes já abolidos por lei há mais de 20 anos), alimentava o clima de brigas internas dissensões e revolta. Em meio a essa maré, João Cândido Felisberto, exímio timoneiro, marinheiro experimentado, assume a liderança dos marinheiros e canaliza a revolta contra o inimigo comum. Sob seu comando, a tripulação preta e pobre prendeu os oficiais e tomou o controle dos navios que tinham o maior poder de fogo, como o encouraçado Sãs Paulo que com seus canhões poderia destruir a então capital da república.

Exigiam o fim dos castigos físicos (a chibatada), melhoria no soldo e na alimentação de bordo e ameaçaram bombardear o palácio do Catete (sede do Governo Federal)
Alguns oficiais que resistiram foram mortos e tiros de canhão foram trocados com as fortalezas da costa. A população do Rio de Janeiro estava aturdida, entre a curiosidade e o medo, o governo em xeque.

Pretendemos aqui levantar dados sobre este movimento e tentar estabelecer conexões com o com movimento dos marinheiros que antecedeu o golpe de 64. Segundo alguns ex-marinheiro, cassados nesta época, exceto o uso explícito da chibata, abolido a custa de fogo e sangue em 1910, em 64 os marinheiros lutavam por todas as demais reivindicaçõesque levaram à revolta João Cândido e seus companheiros.

 

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Queremos Paz!
 

Ante a inexplicável escalada armamentista dos Estado Unidos achamos oportuno traduzir e publicar a declaração do Movimento Cubano pela Paz e Soberania dos Povos.

DECLARAÇÃO 

 

O MOVIMENTO CUBANO PELA PAZ E A SOBERANIA DOS POVOS, observa com preocupação o desencadeamento de novas ações por parte de Estados Unidos da América no que se refere ao armamentismo, que inelutavelmente conduzem o mundo a uma nova escalada bélica que pode pôr em perigo a existência de nosso planeta. 

A insistência dos EE.UU. em implantar um Sistema Nacional de Defesa Antifoguetes constitui junto com outras manifestações, um fato provocador e ameaçador para todos os povos do mundo, além de que viola o Tratado de Defesa antifoguetes. 

Enquanto a humanidade reclama a cada minuto o direito ao desenvolvimento, à tranqüilidade e ao melhoria da espécie humana, o Complexo Militar Industrial dos EE.UU., incapaz de escutar este justo apelo devido a seus egoístas interesse imperiais, incrementa seus preparativos bélicos, ameaça outros povos que não têm outra opção senão preparar-se, levando mais uma vez o mundo a uma situação de "guerra fria" que atenta contra a humanidade. 

Exortamos a todos os movimentos de paz no planeta, a todos os homens e mulheres que advogam por um mundo de paz, justiça e equidade, que levantem suas vozes contra esta nova espiral guerrerista que sem distinção alguma ameaça a todos.

MOVIMENTO CUBANO PELA PAZ E SOBERANIA DOS POVOS, julho de 2000

 

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Quem lembra de João Cândido?

L:írianTabosa

Antes de chegarmos aos finalmentes, leremos um depoimento dado ao historiador e jornalista Edmar Morel: “Foi horrível;. Dos 18 camaradas no meu cubículo só escaparam dois: eu e o Pau da Lira, que trabalhava no Cais dos Mineiros, no Caju. O resto foi comido pela cal jogada com água dentro do subterrâneo. Outros, de tão inchados pareciam sapos. A prisão era pequena e minava água por todos os lados. As paredes estavam pichadas. A gente sentia um calor de rachar. O ar, abafado. A impressão era de que estávamos sendo cozinhados dentro de um caldeirão. Alguns, corridos pela sede, bebiam a própria urina. Fazíamos nossas as necessidades num barril que, de tão cheio de detritos, rolou e inundou um canto da prisão. A pretexto de desinfetar o cubículo jogaram água combastante cal. Havia um declive e o líquido, no fundo da masmorra, se evaporou, ficando a cal. A princípio ficamos quietos para não provocar poeira. Pensamos resistir os seis dias de solitária com pão e água, mas o calor ao cair das 10 horas era sufocante. Gritamos. As nossas súplicas foram abafadas pelo ruflar dos tambores. Tentamos arrebentar as grades. O esforço foi gigantesco. Nuvens de cal se desprendiam do chão e invadiam os nossos pulmões, sufocando-nos. A escuridão tremenda; a única luz era um candeeiro a querosene. Os gemidos foram diminuindo, até que caiu o silêncio dentro daquele inferno onde o Governo Federal, em quem confiamos cegamente, jogou 18 brasileiros, com seus direitos políticos garantidos, pela constituição e por uma lei votada pelo Congresso Nacional. Quando abriram a porta já tinha gente podre.” Este é uma parte do depoimento que foi dado por um homem simples, nascido em 1880 na cidade de Encruzilhada, interior do rio Grande do Sul. Ele se chamava João Cândido Felisberto. Bem novo, aos 13 anos, assenta praça na marinha. Com mais um tempozinho se torna marinheiro de 1a. classe e vai a Europa assistir ao finalzinho da construção do encouraçado Minas Gerais. Não sei por que cargas d’água até hoje se toma benção aos Estados Unidos! Naquela época, na viagem inaugural, o encouraçado Minas Gerais passou primeiro lá e depois é que vem para o Brasil. Nesta viagem o pobre marinheiro Marcelino Rodrigues Meneses recebe o castigo de 25 chibatadas (aliás, há quem diga que foram 250). Este fato precipitou a Revolta, que já há tempos estava programada.Já havia o Decreto no. 3 de 16 de novembro de 1889 proibindo as chibatadas, quer dizer: vem de longas datas esse negócio das leis existirem só no papel. Depois da tortura de Marcelino, a gota d’água, o comandante do Minas Gerais é morto e os demais oficiais abandonaram o encouraçado. O Brasil estava eufórico, era o terceirodo mundo na esquadra militar: 2 encouraçados, 3 cruzadores, 6 caça-torpedeiros, 6 torpedeiros, 3 submarinos e 1 transporte. Em meio a essa parafernália toda surge João Cândido como líder do movimento, que junto com outros marinheiros resolve deflagrar a Revolta da Chibata, no dia 22 de novembro de 1910. Planejou: na hora do clarim, que pedia silêncio, cada um que assumisse o seu posto. Prenderiam os oficiais em seus camarotes, cada canhão guarnecido por 5 marujos etc., etc. Radiogramas e sinais exigiam a abolição dos castigos corporais e o perdão prévio de suas penas Atiraram primeiro para Villegaignon e cercanias. A Revolta se estendeu a outros navios e com eles a ordem para uma posição favorável a um possível bombardeio à cidade do Rio de Janeiro. O jornalista Edmar Morel conta: “as fortalezas não davam um pio e o governo, com vários almirantes e generais, tremia de medo diante do humilde marujo João Cândido.” A cidade entrou em pânico: 3 mil pessoas fugiram para Petrópolis, as famílias da.. zona sul abrigaram-se nos subúrbios. Enquanto Rui Barbosa, opositor de Hermes da Fonseca, fazia seus discursos em favor dos revoltosos, apresentava também a solução, sugerindo a anistia. Mesmo assim ainda houve um levante na Ilha das Cobras, que sediava o Batalhão Naval. Foi sufocado. A Ilha foi bombardeada e os fuzileiros hastearam a bandeira branca. Após trocas de mensagens com as autoridades e o compromisso formal do governo de que seria definitivamente abolido o uso da chibata e da promessa de anistia, negociados papel através do Comandante e Deputado José Carlos de Carvalho, os revoltosos cessaram as hostilidades. Foi o bastante para que o governo decretasse imediatamente o “estado de sítio” e com ele a revanche. Inexplicavelmente João Cândido e vários de seus companheiros no foram presos a desceremno cais dos mineiros, no Caju, Pagou caro, conforme se leu no depoimento inicial. Foi acusado de favorecimento aos amotinados, expulso da marinha. Mas tinha sua consciência tranqüila, patriótica, solidária. Acabou com mais uma página vergonhosa de nossa história. Vários de seus companheiros foram assassinados covardemente, mas ele, João Cândido, só veio a falecer no dia 6 de dezembro de 1969, no Rio de Janeiro.
Viva João Cândido, e seus heróicos companheiros!
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Quem Lembra de João do Vale?
Por Jorge Kafka
Pisa na Fulô, mas não maltrata o Carcará.
É o nome do livro do jornalista e escritor Márcio Paschoal, que homenageia João do Vale. O lançamento será no dia 15 próximo, na Livraria Argumento, no Leblon.

 

 

Pisa na Fulo mas não Maltrata o Carcará é um lançamento da Editora LUMIAR e tem como personagem central o cantor e compositor de música nordestina João do Vale. João é homenageado em 287 páginas, 40 fotos, discografia e musicologia.

O livro, prefaciado por José Sarney (?), soma depoimentos diversificados a respeito do autor de Carcará, Pisa na Fulô, Peba na Pimenta, O Canto da Ema, Na Asa do Vento e Estrela Miúda, entre inúmeras outras. Fala de João do Vale, Edu Lobo, Luiz Vieira, Fagner, Zé Kéti, Vital Farias, Marlene, Elba Ramalho, Elke Maravilha, Ferreira Gullar, Chico Anísio, João Nogueira e Afonsinho, o jogador de futebol.

João do Vale nasceu no Lago da Onça, Pedreiras, Maranhão, em 1934 e morreu em São Luiz em 1996. Desde menino saiu pelo mundo afora. Conheceu Sergipe, Minas Gerais, Bahia e Rio de Janeiro e Nova Iguaçu. Em Nova Iguaçu João veio morar em Rosa dos Ventos, numa casa comprada do grupo musical nordestino Marines e sua Gente. Isso aconteceu por volta de 1969, época em que a ditadura militar perseguia artistas, políticos. Estudantes e todos aqueles considerados perigosos e chamados de subversivos e inimigos da “Revolução”. E essa casa serviu de ponto de encontro de músicos, compositores, cantores, atores e produtores. Por ela passaram Antônio Pitanga, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tim Maia, Chico Buarque, Clara Nunes. Muitos daqui eram mandados para o exterior.

Com João do Vale aconteceu diferente: ele, Zé Kete e Nara Leão (depois Maria Bethânia) faziam o show Opinião, uma forte crítica ao governo militar, que resultou para o João a volta para Pedreiras, sua cidade natal, onde ficou sob a proteção ( por incrível que pareça), de seu amigo José Sarney, então governador do estado do Maranhão . Tudo isso e muito mais está relatado em Pisa na Fulo, mas não Maltrata o Carcará, uma idéia que nascida de seu filho, Riva do Vale, há dois anos, em Nova Iorque. Riva, que vem há muito tempo batalhando para realiza-la, declara: É o resgate da memória de uma pessoa que lutoue semeou a resistência cultural nordestina, trazendo-a para os grandes centros urbanos.

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Nota da redação: Publicamos o presente artigo em respeito à memória de João do Vale, artista, compositor, que em momentos difíceis de nossa história, como muitos outros artistas, sofreu na carne o látego da ditadura, da qual o Sr. Sarney foi um dos sustentáculos.

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De quem é a Culpa, Sr. Presidente?

Jorge Kafka

Fiquei sentido com a morte estúpida da jovem professora do ônibus 174. Fiquei chocado com a falta de seriedade, com a falta de preparo policial, no momento do desenlace do fato. O assaltante, oriundo daqueles meninos que foram chacinados na Candelária, embora sobrevivente, não teve a chance de caminhar por outros caminhos que não fosse o da violência. Ele iria se entregar, sua intenção era essa quando desceu do ônibus com a refém. Então, para que agir daquela forma? Pra que agir precipitadamente, pondo em risco a vida inocente da jovem professora?

De repente surge no vídeo da TV a imagem turva e não delineada do Presidente da República, dizendo-se chocado, estarrecido com todo aquele macabro espetáculo; afirmando que a polícia não estava preparada para aquele tipo de ação. É o ponto final de um desenlace trágico na vida do cidadão brasileiro, no nosso cotidiano.

O Sr. Presidente da República, como num passe de mágica, como um gênio do mal, que sai de uma garrafa eletrônica, fala, mas não resolve nada. Não atende aos apelos e desejos da sociedade brasileira, que vive em constante intranqüilidade, entregue ao seu próprio destino. E de quem é a culpa da violência que chocou e estarreceu o próprio Presidente da República? De quem é a culpa daquele miserável não ter tido outra opção na vida que roubar e matar, Sr. Presidente? De quem é a culpa de famílias e lares viverem enlutados de dor e sofrimento? A quem devemos recorrer, Sr. Presidente?

Sr. Presidente, também é violência a fome do povo, também é violência a falta de trabalho, também é violência essa política social que esquece dos mais necessitados. Também é violência, Sr. Presidente, o povo sem casa para morar, escolas para seus filhos estudarem. Também é violência entregar a nossa política econômica ao FMI.

E de quem é a culpa de tudo isso, Sr. Presidente?

 

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Movimento em Ação

SEPE denuncia manobra do Governador contra o Sindicato

 

"Imperador Garotinho quer destruir o SEPE" Assim definiu um diretor do Núcleo de Nova Iguaçu a política do Governo do Estado em relação à entidade. Segundo ele, "O Governador Garotinho suspendeu o desconto em folha da contribuição voluntária dos associados ao SEPE e obrigou os diretores do Sindicato licenciados pelo Estado a retornarem às escolas. Com estas duas medidas, o Governador pretende eliminar um dos focos de resistência a seu Governo". "Desde fevereiro" -continua- "o Estado, apesar de continuar descontando nos contracheques a contribuição dos sindicalizados, não repassava ao SEPE o montante arrecadado. Pressionado pelo Sindicato e pela opinião pública, o Governador, que já acumulava quase meio milhão de reais, resolveu devolver os valores aos sindicalizados. Alegou que o SEPE não havia se recadastrado junto à Secretaria de Administração para ter direito ao serviço,"-conclui- "o que é mentira." Ainda segundo o diretor, os advogados do SEPE conseguiram uma liminar na justiça, obrigando o Governador a devolver os valores descontados, mas Garotinho ignorou a decisão judicial e devolveu os valores no contracheque de junho. Anteriormente, o Governador havia exigido o retorno de todos os diretores do SEPE que estavam licenciados de suas escolas para o trabalho do Sindicato, sob alegação de que as escolas precisam destes profissionais da educação. Em relação a este fato, afirma: "os deputados estaduais e outros órgãos continuam sendo beneficiados pelo trabalho de centenas de professores e funcionários liberados pelo Governador" Segundo a mesma fonte, as medidas de Garotinho não são novidade. Em 93, o então Governador Leonel Brizola suspendeu os descontos dos sindicalizados, como represália às campanhas de denúncias do SEPE sobre sua política de Educação. Para o SEPE, Garotinho quer ter a unanimidade da população do estado. Quer ter o apoio a seu Governo dos partidos da esquerda e da direita e de todas as organizações da sociedade. "E nós, por fazermos oposição, devemos ser eliminados". "Mas o SEPE resistiu, continuou lutando e vai sobreviver, certamente, a mais este ataque do Governo neo-conservador do PDT"-conclui..

 

Martí Popular em BH

( VIII Convenção Nacional de Solidariedade com Cuba,)

 

O Martí Popular esteve presente, somando forças, propondo, discutindo e contribuindo com o sucesso daquele importante evento.. Presentes à convenção estavam, além de Minas, delegados de Brasília, Rio de Janeiro, Espírito Santos, Pernambuco, Ceará, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, todos participantes de Associações, Centros Culturais ou CDR's. Também presentes estavam autoridades cubanas da Embaixada, do ICAP e da Universidade de Havana. Nas comissões de trabalho foram discutidos os temas das Brigadas de Trabalho Voluntário, do Intercâmbio Cultural e Científico, da Educação e Saúde, das Ações contra a propaganda negativa contra Cuba do II Encontro Mundial de Solidariedade com Cuba e das Ações Contra o Bloqueio Norte-americano.

 

Como propostas do encontro aprovadas no relatório final destacam-se: a) Intensificar as campanhas já em andamento e implementar uma campanha Nacional de solidariedade a Cuba; b) Buscar, através da pressão de parlamentares de esquerda que os governantes de todas as esferas do Brasil se posicionem contra o seqüestro do menor Elián Gonzáles Brótons e seu conseqüente retorno a Cuba; c) Pleitear junto à Cubana de Aviación a possibilidade de retomar os vôos partindo do Rio de Janeiro; d) Criar um tribunal Nacional e Internacional para julgar o bloqueio norte-americano contra Cuba; Dentre todas as propostas, ao nível políticos podemos resumir as decisões do encontro em dois pontos fundamentais: a) O Manifesto da Convenção contra o bloqueio norte-americano à Cuba e pelo retorno imediato de Elián Gonzáles; b) Intensificar em todas as esferas, e ao nível nacional e internacional, as ações de denúncias do bloqueio e todas os seus acessórios e manobras; c) A unidade de ação do movimento de solidariedade com Cuba; d) A promoção do II Encontro Mundial de Solidariedade com Cuba; e) O aperfeiçoamento da política de recrutamento e organização das Brigadas de Trabalho Voluntário; f) A escolha do Rio de Janeiro como sede da convenção de 2001. Até Lá!

 

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Informes, Agenda e Outros

Informes do CIC “Martí Popular”

A Assembléia do Centro de Intercâmbio Cultural “Martí Popular” foi realizada no dia 27 de maio, no Instituto de Educação Rangel Pestana, Nova Iguaçu. Contando com a presença de mais de 150 pessoas, em sua maioria estudantes, professores,  animadores culturais, membros de partidos políticos e lideranças comunitárias. O evento caracterizou-se pelo alto nível das discussões.

 

Seguindo-se à abertura, às 14:20h. o professor da UFRJ, Valter Duarte Filho, convidado, brindou os participantes com uma palestra sobre os 500 anos do Brasil, à qual se seguiu acalorado debate.

 

 

O Professor Valter Duarte Filho, convidado
pelo Martí Popular, discorre sobre o tema
"Brasil, 500 anos de que?"

 

Na seqüência, foi feita uma homenagem ao cantor, compositor, poeta e ator Sylvio Monteiro, que faleceu  de uma infecção hospitalar adquirida após longa internação em conseqüência de um acidente de automóvel

Esta homenagem constou de um painel de fotos e textos de sua autoria publicados no jornal Correio da Lavoura (a quem vai nosso agradecimento), apresentação de um vídeo com fragmentos de sua atuação como poeta e ator (nesta condição, atuou notadamente no importante trabalho “Cemitério dos Vivos”), um pequeno recital de poesias protagonizado pela poetisa Lírian Tabosa, e depoimentos de antigos companheiros do movimento popular, no qual o Sylvio, apesar de artista, e a exemplo de Martí, nunca deixou de se inserir. A seguir, foi composta e eleita por aclamação a Coordenação do Centro de Intercâmbio . Como encerramento, um grupo de alunos do curso de Formação de Professores do Colégio Estadual Milton Campos apresentou a peça O encontro das Três Etnias, seguido de uma seqüência de danças sugerindo a participação destas etnias na formação do povo brasileiro.

 

Alunos do CE Milton Campos em ação

 

Deliberações importantes da Assembléia:

·Eleição da nova Coordenação do Centro de Intercâmbio Cultural “Martí Popular”;

·Criação do MARTIPAZ, departamento responsável pelo acompanhamento das discussões sobra a paz, em conexão com o Movimento Cubano pela Paz e Soberania dos Povos e o MovimentoMundial pela Paz;

·Indicação do companheiro Luiz Nolasco para responder pelo MARTIPAZ;

·Realização este ano do Pré-Congresso de pedagogia, visando o Congresso de Pedagogia em Cuba, no início do próximo ano.

Informes sobre o Curso de Espanhol:

Foram iniciadas novas turmas do Curso de Espanhol Básico do Centro de Intercâmbio Cultural “Martí Popular”; uma no CE Sgto. Antônio Ernesto, em Cabuçu, uma no CIEP 197- Ministro Marcos de Barros Freire, Shangri-lá e uma no Instituto de Educação Rangel Pestana, onde funciona nosso curso regularmente. Todas as aulas são aos sábados,nos seguintes horários:

a)Sgto. Antônio Ernesto – 10:30 às 12:00 horas;

b)CIEP 197 – 09:00 às 10:30:00 horas;

c)Rangel Pestana, das 14:30 às 16:00 horas.

d)Maiores informações, nestes horários e locais. 

Comunicado aos companheiros do Centro de Intercâmbio Cultural “Martí Popular” e demais interessados

O Pré-Congresso de Pedagogia previsto para 26 de agosto foi adiado para 16 de setembro, das 13:30 às 18:00h. 

O evento constará de 3 momentos: 

* Mesa redonda sobre o Congresso de 2001 em Cuba;

* Trabalhos de grupo sobre a Educação Contextual seguido de plenária, e;

* Discussão das alternativas de participação do Congresso de Pedagogia 2001 em Cuba.

Reuniões de organização aos sábados, às 16:30h, no Bloco B do Rangel Pestana, Centro de Nova Iguaçu.

Até o Próximo.

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