Berta Baptista Lima

Nando Giulio Murra

Alguém já disse que a história é algo que, ainda que não saibamos, todos ajudamos a construir. Em particular, algumas pessoas vivem com tanta intensidade que, mesmo não estando mais presentes, continuam ajudando a construir a obra que sonharam. Este é o caso de Berta Baptista Lima, sobre quem tentamos resumir algumas passagens de sua vida.

Berta nasceu no Uruguai, no Departamento de Paisandú, em 1932. desde cedo, foi para Montevidéu, onde concluiu os estudos e começou a militar solidariamente pelas causas que considerava justas.

No início da década de 60, Berta militava na Frente de Izquierda de Liberación (FIDEL) e trabalhava na Universidade da República. Nesta época, o entusiasmo da Revolução Cubana se espalhava pelo mundo e chegava até o Uruguai, e até Berta. Nesses anos de lutas e esperança, depois do triunfo da Revolução, Fidel Castro e Ernesto “Che”Guevara percorreram vários países da América Latina, inclusive o Uruguai e o Brasil. Em Montevidéu, Fidel e o Che participaram de um grande encontro no edifício central da Universidade da República; entre os muitíssimos presentes estava Berta.

O contato direto com os protagonistas da Revolução Cubana foram decisivos para que Berta se apaixonasse pela idéia de viver na Ilha. Em 1962 Berta viajou a Cuba para ficar.

Ela contava com entusiasmo a alegria de ter compartilhado esses primeiros anos da Revolução com o povo cubano: a transformação das mansões em escolas e postos de saúde, os novos problemas e as soluções originais, o trabalho voluntário, as crises internacionais e tantas outras histórias...

Em Cuba, Berta trabalhou em vários lugares, inclusive como secretária do Conselho de Estado. Assim, foi testemunha de muitas reuniões decisivas para os destinos da Ilha. Sobre essa época, gostava de contar passagens cotidianas como a de um dia em que distraída de seus afazeres, pela janela olhava o Che andando pelo pátio do Palácio da Revolução; então ele parou, dirigiu-lhe o olhar, e gesticulando com os dedos sugeriu gentilmente que ela voltasse a datilografar.

Nos anos seguintes, Berta foi convidada a trabalhar no Ministério da Cultura com o Dr. Nuñez Geménez. Foi chefiar um Departamento de Artes Plásticas, responsável pelo ensino e a construção de acervos. Ali conheceu uma companheira de trabalho e uma amiga para a vida inteira: Olga Hernández. Berta e Olga cultivaram uma amizade que nem a distancia nem o tempo separou.

No início dos anos 70, Berta decidiu voltar para o Uruguai. Como disse José Martí, a obra de uma pessoa deve estar onde ela for mais útil; e Berta acreditou que no momento de luta que seu país atravessava, ela seria mais útil lá.

Poucos dias antes de partir de Cuba Berta andava pelas ruas de La Habana carregando uma mala que iria usar na viagem, quando avistou Fidel, em carro aberto, parado num sinal. Berta correu em sua direçãogritando: “¡Fidel, me voy para el Uruguay!” ; E, depois da surpresa inicial, ele respondeu: “Saludos a los muchachos”. No Uruguai, Berta se integra à luta armada no MLN Tupamaros. Mais tarde, conheceu o exilado brasileiro Jaci Pereira Lima, com quem contraiu matrimônio.

Durante a luta, Berta é presa; Jaci, perseguido pela ditadura brasileira até o Uruguai, consegue sair do país e se exila no Vaticano. Berta sofre os horrores que a ditadura impunha aos seus inimigos. No entanto, nem a prisão , nem as torturas conseguiram dobrar o seucaráter forte. Através de um salvo-conduto Beta consegue sair da prisão e viajar para o exílio na Itália onde reencontra seu esposo. Juntos trabalham alguns anos ensinando artesanato em escolas do Vaticano.

Da Itália Berta acompanhava os desafios que Cuba enfrentava e cultivava o desejo de voltar.à Ilha, lugar, como dizia,onde tinha vivido os melhores anos de sua vida.

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