A família martiana está de luto.

Conversei com o Nando por telefone ainda na primeira semana de janeiro, logo após as festas. Contei-lhe que sofrera um acidente grave e que fraturara a última vértebra da coluna lombar, mas que já estava me recuperando. Deu-me alguns conselhos, e logo em seguida me falou de seu acidente, que resultou em fraturas no fêmur, mas me assegurou que já estava bem. Despedimo-nos, sem saber eu que aquela seria a última vez que conversávamos. Voltei a ligar na terceira semana, mas não tive sucesso. Liguei na quarta, no início de fevereiro, e minhas tentativas foram infrutíferas. Comecei a comentar com os companheiros e a buscar outras alternativas de contato. Nada, o Nando sumira, e eu só tinha aquele número de celular. Busquei seu nome na internet, nada. Na Casa de Repouso onde residira nos últimos anos o nosso guerreiro, e onde o visitara várias vezes, não quizeram dar informações, alegando fazer parte da política interna de preservação de seus internos. Resolvi então buscar por seu irmão, que uma vez conheci, ha muito tempo, em um apartamento onde moravam no Andaraí. Na internet, após várias buscas, encontrei uma espécie de blog cuja última postagem datava de novembro de 2014. Postei, pedindo informações e me desculpando. O autor não viu, mas uma conhecida sim. E entrou em contato com ele, que me contatou. Tive então a triste constatação: o nosso companheiro havia falecido um mês após um acidente automobilístico ocorrido em Petrópolis em 22 de janeiro de 2015.

Ficam aqui nosso pesar e nossas recordações dos momentos que compartilhamos, muitos dos quais registrados em nosso sítio.

Centro de Intercâmbio Cultural Martí Popular

 

A um companheiro que se foi

Por Celso Felizola


- Nando, meu livro de memórias está quase pronto. Você vai figurar nele.
- Fique à vontade, Felizola, estou aí pra ajudar no que for possível. Se você achar conveniente...
O acaso não permitiu que nosso amigo visse esta obra. Ele nos foi levado inesperadamente, antes que eu pudesse levar este capítulo praticamente pronto, para submeter à sua apreciação. Pensei em retirá-lo do livro, hesitei muito, mas, por fim, decidi inclui-lo. E aqui está:
Conhecemo-nos em 1979, no curso de Engenharia da UERJ. Nando fazia cinco anos que imigrara com seus pais e seu irmão para o Brasil, fugido da Ditadura Militar que se havia instalado no Uruguai. Eu era da turma anterior, mas problemas pessoais fizéram que me atrasasse um período, de tal forma que cursava muitas disciplinas em sua turma.
Mas, apesar da proximidade, nosso relacionamento só foi estreitar-se lá por 1983, faltando dois períodos para terminar o Curso. Lembro-me que no final daquele ano falei com ele de minha participação na fundação da Associação de Moradores do meu bairro, e ele ficou entusiasmado.
- Que bom, Felizola, que bom! - dissera-me animado com seu português com acento Espanhol.
Em 1984, na Campanha das Diretas Já, nossas visões políticas se identificaram ainda mais. Lembro-me que por muito tempo podia-se ler no piso do quarto andar da Universidade os dizeres das faixas do Centro Acadêmico de Engenharia que usamos naquela Campanha. Quem as pintava? Nando, que apesar de ter colocado jornais por baixo, não conseguira impedir que os dizeres passassem para o piso.
A despeito de conversarmos, e participarmos de algumas atividades acadêmicas ou políticas, Nando tinha um círculo de amigos que frequentavam, inclusive, o apartamento onde morava, no Andaraí, de forma que nossaa amizade era mantida assim como na periferia. Mas outros acontecimento nos aproximariam ainda mais.
Durante o Curso na UERJ, muitas vezes eu tinha aulas pela manhã e tinha que ficar para algumas aulas no início da noite. E muitas vezes não tinha nada importante que justificasse ir pra casa pra depois voltar pela tarde. Através de um amigo, conheci o Sérgio, que morava no Riachuelo e que tinha uma pequena oficina de conserto de televisores e aparelhos de som. Vendo o Sérgio atolado de serviço, e enrolado, meu amigo falou-lhe que conhecia alguém que era uma assumidade em conserto de televisores (falava sobre mim) e que o poderia ajudar. Marcamos um encontro, e foi ""amor à primeira vista": passei a preencher minhas horas de folga da UERJ ali naquela pequena oficina. Não posso afirmar em que circunstâncias o Sergio e o Nando se conheceram, mas tenho certeza que foi no período que meu colega fazia estágio em uma repartição vinculada à Prefeitura do Rio de Janeiro, e que funcionava ali no Rocha. O Nando passou pela calçada em direção ao estágio e eu os apresentei um ao outro.
Concluímos o Curso, e perdemos o contato. Eu, envolvido em meus afazeres em Nova Iguaçu, vinha uma vez ou outra à oficina do Sérgio, o Nando, tivemos mais notícias dele.
Certo dia, visitando a oficina do Sérgio, ele me falou:
- Compadre - nós nos tratávamos por compadre sem nunca o termos sido - Eu vi passar por ali pela outra calçada, já umas duas vezes uma pessoa que pensei ser o Nando, mas não tive coragem de chamar, não devia ser ele porque era cego e usava bengala!
Observei que havia uma possibilidade de ser nosos amigo porque já na Faculdade ele apresentava uma hipermetropia tão acentuada que escrevia com os olhos quase que a uns dois centímetros do caderno, e com letras diminutas. Muitas vezes brincávamos com ele por isso. Procurei informar-me dos horários de sua passagem, tentando estabelecer um padrão e passei a vir à oficina mais amiúde.
- Se você o vir passar me chame - pedi ao meu amigo.
Numa manhã - isso já devia ser lá por 1993, se não me engano - , Quando cheguei à oficina, o Compadre pediu-me para analisar um aparelho de TV que estava apresentando um defeito. Mergulhado naquela tarefa, demorei a operceber que o Sérgio gritava baixinho pra mim insistentemente:
- Compadre! Compadre! Olha ele passando ali!...
Saí pela portinhola e o vi um cego passando pelo outro lado da rua que margeava a linha férrea, já se afastando em direção ao Rocha. Atravessei e apressei o passo.
- Nando! - gritei, assim que cheguei a uns seis metros.
- Fala de novo porque eu não reconheci a voz! - disse - ao mesmo tempo em que detinha o passo e se voltava para trás.
- Não lembra mais de mim, lá de Nova Iguaçu?...
- Oh, Felizola,.. Como não?
Cumprimentamo-nos efusivamente e, para não detê-lo, acompanhei-o até a entrada da repartição onde - disse-me - estava trabalhando. Era a mesma na qual fizera o Estágio de Engenharia.
- Venha um dia nos visitar que eu quero mostrar-lhe o que fazemos aqui - disse, ao mesmo tempo em que me passava dois números de telefone, um deles de sua residência -. Temos muito que conversar.
- Vamos manter contatos, camarada.
E assim foi: visitei o laboratório onde trabalhava com reparação de equipamentos médicos, mantivemos contatos telefônicos regulares, e passei a visita-lo, em seu apartamento, onde conheci seus pais. Nessas visitas, falou-nos, a mim e a minha esposa, de sua diabete e da consequente perda total da visão; de sua tardia viagem a Cuba para tentar recuperá-la, de sua estadia naquele país, e da reabilitação pela qual passou ali antes de voltar ao Brasil. Sua mãe, dona Tereza, que o acompanhara naquela viagem, acompanhava agora o seu relato com água nos olhos. Aqui e ali acrescentava um detalhe. Nando parecia ter superado perfeitamente o trauma, dona Tereza, apenas sentia falta dos amigos da Universidade, que após os problemas do seu filho desapareceram todos.
Nando parecia incansável. Após retornar ao Brasil tinha se voltado para uma militância cujo objetivo era contribuir para que pessoas com limitações físicas, principalmente as desprovidas da visão, pudessem, como ele, exercer normalmente suas atividades laborais, acadêmicas ou recreativas - por isso se integrou ao projeto "Rompendo Barreiras" na UERJ-. Outra luta que nosso companheiro levou muito a sério foi a de manter uma vigilância cerrada sobre as condições de atendimento e uso das repartições destinadas ao atendimento de saúde da população, ambiente que ele passou a conhecer muito bem. E nesse particular ele era radical, não se importando com os riscos que poderia correr ao denunciar as irregularidades que encontrava. E foram muitas.
Em dezembro de 1994 Nando me ligou:
- Felizola, vai haver uma Conferência sobre os cem anos de José Martí na UERJ. Se você puder ir...
Eu já estava no período de férias escolares e me dispus a participar. Até aquele dia eu nunca tinha ouvido falar naquele personagem, mas pela empolgação do meu amigo, supus que devia ser importante. Foram cinco dias de Conferência. O Nando não pôde participar integralmente o encontro porque os horários das palestras coincidiam com seu horário de trabalho. Mas me ligava todas as noites para saber como tudo tinha transcorrido, minhas opiniões etc. Falei-lhe pela primeira vez da impressão que tive e da polêmica que havia levantado, ainda que tivesse ficado isolado: eu achava aquele evento, pela sua importância e pelo que se tinha mobilizado de recursos, ficara muito restrito aos meios acadêmicos, e mesmo ali, congregara muitos poucos participantes. O Nando concordou imediatamente.
Ocorreu que havia chegado ao Rio de Janeiro em meados de dezembro daquele ano uma cubana Olga Hernández Cruz, vinculada ao Conselho Nacional das Artes Plásticas de Cuba, para desenvolver um trabalho de arte a serviço de seu país. Nando e sua família já a conheciam de outras datas e ele me convidou para uma reunião que aconteceria em casa de Jaci Pereira Lima, em Vila Camurim, Jacarepaguá, onde Olga estava hospedada. A reunião aconteceu, coincidentemente, no dia 29 de janeiro de 1995, data comemorativa do nascimento de José Martí. Daquela discussão surgiu a ideia de ampliar os conhecimentos sobre a importância das ideias daquele cubano para os povos da América Latina; surgiu então a proposta do Martí Popular, entidade com a qual Nando colaborou até sua morte.
Outros desdobramentos advieram daquela reunião: organizamos um grupo para participar, pela primeira vez, do Encontro de Educadores Latino-americanos em Cuba, e, quando do retorno daqueles educadores, organizamos um Encontro em Nova Iguaçu, com o objetivo de repassar experiências. Da mesa daquele encontro participou o Cônsul de Cuba no Rio de Janeiro, e contaria com a presença do Nando, com seu depoimento sobre sua estadia e sua reabilitação naquele país. O Companheiro não apareceu, e deduzimos que algo de ruim estaria acontecendo. De fato, justamente naquele dia, falecera o seu pai, Ivo Murra.
A despeito da morte do pai, Nando não esmoreceu. Continuou morando com sua mãe no apartamento da Rua Pontes Correia, no Andaraí. Muitas vezes o conduzi de Nova Iguaçu até ali, após a participação de algum evento para o qual o convidáramos. Sempre solícito, ele sempre se colocava à disposição.
Algum tempo depois o infortúnio voltou a se abater sobre a família Murra: ao transitar pela Avenida Maxwel, dona Tereza é atropelada e sofre sérias fraturas. Após ter estado em situação crítica, consegue, aos poucos, recuperar-se. Mas não escapou de um acidente vascular que sobreveio tempos depois. Nando acompanhou de perto a sua mãe, e viveu as dificuldades dos usuários da saúde, pois teve que dar um cheque-caução de valor absurdo, já ilegal naquela época, para que sua mãe pudesse permanecer internada numa Clínica local.
- Um absurdo, Felizola! - dissera-me.
Dona Tereza veio a falecer logo depois. O cheque, não sei o que aconteceu com ele, mas creio que o nosso companheiro não deve ter deixado barato aquela obscenidade. Com a morte da mãe, seu irmão veio morar junto com ele no apartamento do Andaraí. Mas passado algum tempo mudou-se, e o Nando passou a morar sozinho, Nós continuávamos a visitá-lo.
A certa altura de 2010, não me lembro ao certo, o Nando deixou de atender ao telefone. Liguei várias vezes, e nada. Deixava passar uma semana e ligava novamente. Nada. E assim se passaram meses, até que no início de 2011, quando fiz uma nova tentativa, ele me atendeu, e, com a voz um pouco estranha, disse-me que estivera muito doente por causa de uma infecção no calcanhar, mas que agora já estava se recuperando. Estava orando em uma Casa de Repouso no Rio Comprido e lá poderíamos conversar. Deu-me os horários de visita e despediu-se. Não demorei a localizar a dita casa. Num domingo, fomos, eu e minha esposa, parar lá. Recebeu-nos com muita alegria, contou-nos os sofrimentos pelos quais havia passado naquele período, e se disse satisfeito por estar ali. Falou que já estava, inclusive, indo ao trabalho.
Quase totalmente recuperado, Nando continuou morando ali, e, pareceu-me, para fugir da solidão ou por causa da diabete ou outro motivo que não cheguei a identificar, passou a dedicar-se cada vez mais ao trabalho, inclusive ficando de sobreaviso aos sábados e domingos. Era só aparecer um problema em algum hospital da rede e lá ia ele. Muitas vezes deixávamos de lhe fazer uma visita porque estava esperando um chamado. Mas nos falávamos através do telefone fixo.
Ainda o visitamos naquela casa, eu, minha esposa - e, eventualmente, um ou outro conhecido -, por várias vezes, até que eu sofri um acidente e perdemos o contato novamente. Quase recuperado, em dezembro consegui falar com o nosso o amigo, mas em seguida seu telefone não atendia, ainda que tentássemos quase que dioturnamente. O telefone estava sempre "fora de área". Ligamos então para a Casa de Repouso, mas não quiseram dar informações, alegando política interna. Avaliamos a possibilidade de tentarmos uma visita pessoal, mas concluímos que o Nando não estava mais ai.
Enquanto buscávamos outras possibilidades, torcíamos, por mais absurdo que possa parecer, para que o Nando, como 2010, tivesse estado muito doente. Mas a notícia que tivemos, quase dois meses depois foi que o nosso companheiro havia sofrido um acidente automobilistico e, como consequência, havia falecido.
Sabemos que nosso amigo e companheiro se foi, mas, por algum motivo que desconhecemos, ainda estamos com aquela sensação de que a qualquer hora ele vai nos ligar, e, com sua voz atípica, seu Português com sotaque portenho, deixará um recado na secretária eletrônica:
- Felizola, Arminda, estive muito doente, mas agora já estou bem. Podem vir me visitar…
Ante a única certeza da vida, resta-nos a afirmação do Mestre José Martí Pérez: "La muerte no es verdad, cuando se ha cumplido bien la obra de la vida".


Até sempre, companheiro!

 

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